Anselm Sauls e Fozia Kammies fizeram da encosta da Montanha da Mesa, na Cidade do Cabo, o seu lar há 11 anos, optando pelo abrigo natural em vez dos perigos urbanos. Descrevem a montanha como um espaço protetor que ensina humildade e consciência. A sua história destaca uma fuga deliberada dos abrigos e dificuldades da cidade.
Anselm Sauls e Fozia Kammies vivem num oco sob arbustos espessos na Montanha da Mesa há 11 anos. O seu abrigo fica atrás de um tronco caído perto de um pequeno riacho, um local que dizem ter-se revelado a eles. Anselm afirma: «A montanha protege-o. A cidade é perigosa. Aqui, se vier com o coração aberto, a natureza ensina-lhe, não o bate.» Fozia acrescenta: «Os seus ouvidos abrem-se aqui. Pode dormir, mas ouve tudo.» Anselm, nascido em East London e criado em Mitchells Plain, aprendeu ofícios como pavimentos de vinilo, instalação elétrica e canalização. Trabalhou em abrigos desde 2010, consertando câmaras e navegando políticas internas. O casal tentou uma vez a vida em Joanesburgo, mas regressou a pé à Cidade do Cabo pela autoestrada N1, uma viagem de mais de 1000 km que durou mais de duas semanas. Fozia recorda: «Os meus pés ficaram destruídos, mas chegámos.» Fozia nasceu em 1974 no District Six, o ano em que as demolições começaram sob o apartheid. Cresceu em Scottsville, passou tempo na praia de Sea Point e entrou em abrigos onde desenvolveu competências e rotinas. Conheceram-se enquanto trabalhavam em projetos do Expanded Public Works Programme em Brackenfell. Durante a Covid-19, Anselm passou quase três meses no acampamento de sem-abrigo de Strandfontein, descrevendo-o como avassalador: «Imagine um tipo que luta por uma refeição por dia... Agora coloca-o numa tenda com 1000 pessoas e dá-lhe de comer seis vezes por dia. Claro que ele come... e come. Depois fica doente, mesmo muito doente.» A sua rotina começa às 4 ou 5 da manhã com o canto dos pássaros. Descem à cidade para se desenrascarem, carregando caixas, ajudando em tarefas e ganhando pequenos pagamentos. As pessoas do bairro reconhecem-nos e confiam neles. Tomam duche duas vezes por semana numa instalação em Woodstock e partilham comida quando possível. As ruas da Cidade do Cabo parecem inseguras, com riscos de ataques, enquanto a montanha exige consciência constante contra cobras, escorpiões, tempestades e guardas florestais que ocasionalmente os desalojam. Relatam ouvir fantasmas, como lavadeiras antigas a cantar perto do rio. Fozia diz: «Eles tratam de nós.» A montanha ensina calma, consciência e humildade, explica Anselm: «Se vier aqui com raiva ou selvajaria da cidade, a natureza dá-lhe um estalo. Mas se vier humilde, a natureza ensina.» Vivem ao dia, evitando planos a longo prazo. Se lhes oferecessem habitação estável, Fozia procuraria trabalho com crianças, e Anselm sonha em ser barista para motivar outros. Recentemente, foram desalojados do seu local, deixando apenas um anjo de papel. Apesar das buscas, o seu paradeiro permanece desconhecido.