Jaime de Souza Filho, de 33 anos, descobriu a Folha aos 8 anos pela escola e se tornou um leitor fiel, publicando mais de 4 mil comentários. Diagnosticado com autismo aos 31, ele credita ao jornal um sentimento de não solidão. Sua trajetória inclui mudanças de carreira e críticas à moderação de comentários.
Jaime de Souza Filho, 33 anos, começou a ter contato com a Folha de S.Paulo aos 8 anos, por meio de livros didáticos na escola. Aos 10, já trocava e-mails com colunistas, e na vida adulta, intensificou sua interação ao publicar mais de 4 mil opiniões na seção de comentários do site. Nascido em João Dourado, no interior da Bahia, filho de um fotógrafo e uma dona de casa, ele sempre se interessou por arte. Aos 18, trabalhou no litoral baiano com observação de baleias jubarte; aos 20, mudou-se para Recife (PE), onde se formou em museologia e cinema. Posteriormente, transferiu-se para São Paulo, onde leciona inglês, alegando tédio na rotina anterior.
Aos 31 anos, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que não o surpreendeu, pois sempre se sentiu diferente dos pares. "A Folha trouxe para mim um sentimento de não solidão, porque os colunistas conversavam comigo. Sem ela, eu me sentia um alienígena total, porque as outras crianças não queriam falar de um conflito que está acontecendo na Líbia, mas os colunistas queriam", afirma Jaime. Inicialmente lendo pela conta da irmã, ele adquiriu sua própria assinatura em março de 2019, aproveitando uma promoção para estudantes. Dos 4.360 comentários publicados, 154 foram moderados por violarem regras, resultando em dois bloqueios de três meses cada, o último em outubro de 2025. "Foi uma morte para mim", descreve ele sobre o período de restrição.
Jaime critica a moderação: "Eu não tiro os meus comentários do meu cérebro, eu ponho referências bibliográficas. Foi injusto, foi chocante, foi bizarro. Mas estou feliz por voltar. Ao mesmo tempo, dá um gosto muito amargo na boca a censura de um jornal que se pretende plural". Como homem gay, lamenta a falta de diversidade entre colunistas e a saída de Veny Santos, cuja escrita considera "saborosa". Ideologicamente humanista e defensor de direitos humanos, ele afirma que não há esquerda no Brasil e que PT e PSOL são de centro-direita. Sem religião, identifica-se com ideias do satanismo de LaVey, que, segundo ele, defende o ser humano contra entidades.
Ele elogia o pluralismo da Folha, mas critica a cobertura de temas evangélicos e muçulmanos por falta de senso crítico: "É um jornal que corre atrás de um leitor que nunca mais será dele. É um relacionamento abusivo". Além disso, acusa o jornal de tentar imitar Lula, a quem vê como incoerente. Apaixonado por reportagens científicas, histórias em quadrinhos e produções da TV Folha, Jaime deseja mais laicidade e foco em leitores jovens.