Um estudo publicado na revista The Lancet revela que a violência por parceiro íntimo é o quarto principal fator de risco para morte prematura e invalidez entre mulheres de 15 a 49 anos no mundo. Essa violência supera muitas ameaças tradicionais à saúde e associa-se a suicídios em maior número do que feminicídios. No Brasil, ela ocupa o terceiro lugar, atrás da obesidade e da violência sexual na infância.
Pesquisadores do IHME, da Universidade de Washington, analisaram dados do Global Burden of Disease de 2023 para destacar o impacto da violência por parceiro íntimo (IPV) e da violência sexual contra crianças (SVAC) na saúde das mulheres. Globalmente, IPV fica atrás apenas de sexo sem proteção, desnutrição infantil e materna e deficiência de ferro como riscos para essa faixa etária. SVAC é o quinto fator principal.
Em 2023, 145 mil mulheres de 15 anos ou mais morreram devido à IPV, com suicídio causando 60 mil óbitos — o dobro dos 28 mil por feminicídio. Para SVAC, foram 290 mil mortes, principalmente por automutilação. Essas violências ligam-se a condições como depressão, automutilação, HIV/Aids, esquizofrenia e transtorno bipolar.
"Esses achados desafiam fundamentalmente a visão persistente de que a SVAC e IPV são principalmente questões sociais ou de justiça criminal e reforçam seu status como grandes prioridades de saúde pública", afirma Luisa Sorio Flor, autora principal e professora assistente do IHME.
No Brasil, a obesidade lidera os riscos, seguida de SVAC e IPV. Especialistas como Dandara Ramos, da Abrasco, enfatizam a necessidade de um ecossistema no SUS para atender vítimas, incluindo adolescentes. Rosires Pereira de Andrade, da Febrasgo, relata que serviços como o do Hospital de Clínicas de Curitiba atendem uma mulher por dia, mas com baixa taxa de retorno, e faltam locais para interrupção gestacional em casos de estupro.
Os autores alertam que as violências afetam não só as sobreviventes, mas o bem-estar coletivo, capital humano e desenvolvimento nacional, com implicações econômicas de longo prazo. É essencial prevenção, cuidados imediatos e acompanhamento prolongado.