Entrevista perdida com a ETA censurada pela Espanha em 1976

Em 1976, o jornalista colombiano Héctor Mora realizou a primeira entrevista latino-americana com membros da ETA, mas a reportagem nunca foi ao ar devido à censura ordenada pela presidência da Colômbia, influenciada pela Espanha. A gravação perdeu-se ao longo do tempo, restando apenas fragmentos sem som. A história ressurge agora, 50 anos após a morte de Franco.

Em 20 de dezembro de 1973, a ETA levou a cabo a Operação Ogro, assassinando o primeiro-ministro espanhol Luis Carrero Blanco ao explodir o seu veículo Dodge Dart num terraço. Este homicídio impulsionou a fama global do grupo armado separatista basco. Três anos depois, em 1976, o jornalista colombiano Héctor Mora, apresentador do programa Cámara Viajera, entrevistou um dos atacantes juntamente com outros membros encapuzados.

A entrevista realizou-se numa localidade fronteiriça entre Espanha e França, entre Bayonne e Saint-Jean-de-Luz, no País Basco francês. Mora chegou encapuzado à casa onde ocorreu o encontro, e o camarógrafo era um membro da ETA. A equipa gravou a conversa, na qual a ETA justificou as suas ações como resultado da opressão franquista, com desejo de independência e imposição do Euskera como língua nacional.

Prevista para ser emitida no canal estatal colombiano, a entrevista foi cancelada cinco minutos antes da transmissão 'por orden de Palacio', ou seja, por ordem do gabinete do presidente Alfonso López Michelsen, com base em 'apología al delito'. Mora, próximo do presidente desde os dias no Movimiento Revolucionario Liberal, atribuiu a censura à diplomacia espanhola. Em 1996, num episódio comemorativo do seu programa, Mora afirmou: « No pudo salir al aire porque la diplomacia española logró que nos aplicaran la censura oficial cinco minutos antes de iniciar la transmisión ».

O historiador Felipe Arias Escobar, da Señal Memoria, encontrou fragmentos sem som e uma promo pré-emissão onde Mora declarava: « Tuvimos la satisfacción de ser el primer equipo periodístico de Latinoamérica que entrevistó a los guerrilleros que dieron muerte al presidente de España ». A Espanha estava então em transição após a morte de Franco em 20 de novembro de 1975, com Juan Carlos I como rei e Adolfo Suárez como presidente desde meados de 1976. A gravação completa perdeu-se devido a más práticas de conservação no cambio de produtores.

Héctor Mora, filho do jornalista falecido em 2017, recorda que tinha quatro anos e estava em Bruxelas com a mãe durante a viagem. Esta exclusiva histórica, parcialmente recuperada, ilustra as tensões jornalísticas num período turbulento.

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