A historiadora e arqueóloga Angélica Moreira da Silva, 57, criou a primeira 'tijoloteca' do estado de São Paulo, com 216 peças de tijolos analisadas e catalogadas em dois volumes lançados em 2024 e 2025. O acervo, proveniente de escavações em sítios históricos da cidade, narra o início da industrialização paulista por meio de marcas e símbolos nos tijolos.
Angélica Moreira da Silva, nascida no Sacomã, zona sul de São Paulo, inspirou-se em uma antiga olaria francesa no bairro para seu projeto. A 'tijoloteca' classifica tijolos encontrados em escavações das décadas de 1980 e 1990 em locais como o edifício Ramos de Azevedo, o sítio Morrinhos, de 1700, e o parque Augusta. "Tijolo pode ser um arroz de festa e passamos batido por ser recorrente, mas é um artefato histórico como qualquer outro, como as cerâmicas indígenas", afirma a arqueóloga.
O trabalho começou em 2017, ao descobrir mais de 2.000 tijolos sem catalogação no Centro de Arqueologia de São Paulo. Ela desenvolveu uma metodologia para organizar as peças por descrição, peso, cor, dimensão e símbolos impressos, consultando livros de impostos e referências de materiais da época nas várzeas dos rios Tietê e Pinheiros. Exemplos incluem tijolos da olaria Sacoman Frerès, de imigrantes de Marselha, com símbolo de âncora, e da Bom Retiro, usada antes de 1907 no terreno do atual Arquivo Histórico.
Símbolos como estrelas, meias-luas e uma estrela com cauda, possivelmente aludindo ao cometa Halley em 1910, aparecem em diversas construções, como a Casa do Grito e a Pinacoteca. "Não quero tijolo em caçambas, mas contando história", diz Angélica. Antes do projeto, ela atuou por mais de 30 anos como analista arqueológica no Metrô de São Paulo e estagiou no Departamento do Patrimônio Histórico.