O jovem Gerson de Melo Machado, de 19 anos, morreu por hemorragia causada por lesões nos vasos do pescoço após ser atacado por uma leoa em um zoológico de João Pessoa, na Paraíba. O Instituto de Polícia Científica divulgou o relatório preliminar nesta terça-feira (2), enquanto um exame toxicológico complementar está pendente. O incidente destaca a vulnerabilidade de Gerson, que tinha deficiências intelectuais e histórico de transtornos mentais.
Gerson de Melo Machado, 19, foi atacado por uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, no domingo (30 de novembro de 2025). Ele invadiu o recinto escalando uma parede de mais de seis metros, ultrapassando grades de segurança e se pendurando em uma árvore para acessar a área interna. Imagens de visitantes capturaram o momento em que o animal o atacou nas pernas enquanto ele estava na árvore, mas o laudo preliminar do Instituto de Polícia Científica (IPC) da Paraíba indica que os ferimentos fatais ocorreram na região do pescoço, causando hemorragia por lesões em vasos sanguíneos.
O corpo apresentava marcas de garras e mordidas, mas a leoa não ingeriu partes da vítima. O relatório completo ainda não foi concluído, e um exame toxicológico deve sair em até 45 dias. O sepultamento ocorreu na tarde de segunda-feira (1º de dezembro) no Cemitério do Cristo, em João Pessoa.
Gerson tinha deficiência intelectual, transtornos mentais e um histórico de vulnerabilidade desde a infância. Acompanhado intermitentemente pelo conselho tutelar por quase uma década, ele falava recorrentemente sobre 'cuidar de leões na África', segundo profissionais. A conselheira tutelar Verônica Oliveira o descreveu como uma 'criança carinhosa, apaixonada por animais', mas alvo de pessoas mal-intencionadas. Em 2017, aos 10 anos, foi encontrado sozinho em uma rodovia pela Polícia Rodoviária Federal e levado ao conselho de Mangabeira. Ele fugia frequentemente, roubava cavalos para passear pelas ruas – ganhando o apelido irônico de 'vaqueirinho' – e, aos 12, atravessou a cidade montado em um jumento até a Estação Ciência.
Filho de mãe esquizofrênica, Gerson foi o único de cinco irmãos não adotado e acolhido aos 4 anos em uma instituição em Pedras de Fogo. Suspeitava-se de uma condição similar à da mãe, mas o diagnóstico foi difícil; um laudo psiquiátrico para transtorno de desenvolvimento intelectual foi negado pela Justiça. Após os 18 anos, acumulou 16 prisões por furtos, influenciado por assaltantes locais. Vídeos seus nas redes sociais o tornavam alvo de chacotas.
Durante o velório, o padre José Carlos Serafini o comparou a 'João Grilo de Ariano Suassuna, com ideias mirabolantes'. Em 2023, tentou acessar o trem de pouso de um avião no aeroporto de João Pessoa. A leoa, única no zoológico gerido pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam), ficou estressada mas respondeu aos tratadores sem necessidade de tranquilizantes e não será sacrificada. O parque permanece fechado para investigações envolvendo Semam, Polícia Civil, Ibama, Sudema, guarda municipal e conselho estadual de veterinária. Em nota, o parque chamou o episódio de 'incidente absolutamente imprevisível' e enfatizou transparência.
Conselheiras como Patrícia Falcão alertam que o caso expõe o abandono de jovens com transtornos mentais por falta de atendimento especializado: 'Não queremos que a morte dele seja em vão. Temos muitos Gersons precisando desse atendimento'.