No Chile, o Natal passou de uma celebração barulhenta e comunitária nos tempos coloniais para um evento mais íntimo e doméstico, moldado pela urbanização e pelo comércio. Especialistas observam que, apesar da secularização e das críticas à comercialização, elementos centrais como reuniões familiares e presentes atenciosos perduram.
Todo dezembro, o Natal no Chile evoca nostalgia por um passado idealizado, com críticas à sua crescente comercialização e perda de espiritualidade. No entanto, como explica María Gabriela Huidobro, acadêmica da Universidad Andrés Bello, «as redes sociais desencadearam um debate cultural promovido por alguns migrantes no Chile, que olham com surpresa a sobriedade de nossas celebrações. Alguns nos dizem que somos chatos... Na realidade, o Natal chileno nem sempre foi íntimo ou silencioso».
Historicamente, 25 de dezembro comemora o nascimento de Jesus, ligado ao solstício de inverno no hemisfério norte e à veneração romana a Sol Invictus. Nos tempos coloniais e grande parte do século XIX, as celebrações eram sociais e populares: após a missa de meia-noite, as ruas se enchiam de música, danças, fogos de artifício e barracas improvisadas, assemelhando-se mais às Fiestas Patrias do que à véspera de Natal atual. Os presentes eram modestos, como frutas, flores, doces caseiros e buquês de manjericão, onde o gesto importava mais que o valor.
O Papai Noel só chegou ao Chile na década de 1940. Com o tempo, a urbanização, a vida laboral moderna, influências estrangeiras e o comércio transformaram a festividade em algo mais doméstico, ordenado e silencioso. O Chile se secularizou, esquecendo muitas vezes as origens religiosas, mas a necessidade humana de se reunir e compartilhar persiste.
Hoje, o que resta é o encontro: a mesa compartilhada, presentes modestos ou de amigo secreto, e uma pausa para lembrar os entes queridos. Como reflete Huidobro, além do consumismo, são os gestos pessoais que dão sentido a essas datas, conectando-nos a profundas tradições ocidentais.