O exército da Guiné-Bissau tomou o poder na quarta-feira, nomeando o general Horta N’Tam como líder interino por um ano, pouco antes de serem esperados os resultados eleitorais. O presidente Umaro Sissoco Embalo foi detido, mas evacuado em segurança para o Senegal. O candidato da oposição Fernando Dias da Costa reclamou a vitória e acusou Embalo de orquestrar o golpe.
O golpe na Guiné-Bissau desenrolou-se na quarta-feira, descarrilando o anúncio dos resultados provisórios das eleições presidenciais e legislativas de domingo. O exército atuou um dia antes do esperado para os resultados, citando uma conspiração envolvendo «senhores da droga» e importação de armas para alterar a ordem constitucional, segundo o general Denis N’Canha, chefe do gabinete militar presidencial.
O general Horta N’Tam, chefe do estado-maior do exército e aliado recente de Embalo, foi empossado como novo líder do país por um ano na sede militar. «Acabei de ser empossado para liderar o Alto Comando», declarou N’Tam durante o juramento. Dirigiu-se a uma conferência de imprensa rodeado por soldados armados, afirmando que o exército interveio «para bloquear operações que visavam ameaçar a nossa democracia» e que «as medidas necessárias são urgentes e importantes e requerem a participação de todos». O exército também nomeou o general Tomas Djassi, antigo chefe do estado-maior pessoal de Embalo, como chefe das forças armadas.
Embalo, que reclamara a vitória nas urnas, foi detido mas chegou «são e salvo» ao Senegal num avião militar fretado pelo governo de Dakar, confirmou o ministério dos Negócios Estrangeiros do Senegal. O candidato da oposição Fernando Dias da Costa, principal rival de Embalo após a proibição de Domingos Simoes Pereira, alegou da sua escondida ter ganho com cerca de 52 % dos votos e que «não houve um golpe» mas um «organizado pelo senhor Embalo». Dias escapou à detenção na sua sede de campanha, enquanto Pereira foi detido.
Bissau parou na quinta-feira, com lojas e mercados fechados e soldados a patrulhar as ruas. O exército proibiu programas mediáticos e protestos, selou depois reabriu fronteiras, levantou o recolher obrigatório e ordenou a reabertura de mercados e escolas. O antigo presidente nigeriano Goodluck Jonathan, que liderava a missão de observação eleitoral do Fórum dos Anciãos da África Ocidental, foi evacuado em segurança para Abuja no meio do caos. Num comunicado conjunto com outros observadores, condenou o golpe como uma tentativa de descarrilar a democracia.
A União Africana exigiu a libertação imediata de Embalo, o presidente da CEDEAO Julius Maada Bio chamou-lhe «grave violação da ordem constitucional da Guiné-Bissau», e a UE instou ao retorno ao regime constitucional. Investigadores e membros da diáspora sugeriram que o golpe poderia acabar por beneficiar Embalo, notando que resultados não verificados mostravam Dias na frente. A Guiné-Bissau, independente de Portugal desde 1974, registou quatro golpes bem-sucedidos e várias tentativas, com eleições contestadas como problema recorrente. O vendedor local de sabão Mamadou Woury Diallo lamentou: «Cada vez que sentimos esperança pelo país, surge uma crise. Isto não pode continuar.»