A atriz Maria Ribeiro, conhecida por seu papel icônico em 'Vidas Secas' (1963), faleceu em 29 de dezembro de 2024, aos 102 anos, em Genebra, na Suíça, após um derrame. Nascida no sertão baiano, ela teve uma vida marcada por reviravoltas, do trabalho rural à tela de cinema, estreando aos 40 anos sem experiência prévia.
Maria Ramos da Silva, batizada como Maria Ribeiro, nasceu em 1923 em Sento Sé, na Bahia, caçula de sete irmãos em uma família de trabalhadores rurais. Cresceu no povoado de Boqueirão, hoje submerso pelas águas da barragem de Sobradinho no rio São Francisco. Aos três anos, mudou-se para Juazeiro por circunstâncias, e aos cinco, seguiu para Pirapora, em Minas Gerais. Aos 15, chegou ao Rio de Janeiro, onde trabalhou em fábricas e tipografia.
Em Minas, conheceu o jornalista José Emiliano da Silva, com quem teve a filha Wilma. De volta ao Rio, atuou no Cine Pathé e na Líder Cine Laboratórios, onde cruzou caminhos com diretores como Nelson Pereira dos Santos, Herbert Richers, Glauber Rocha e Cacá Diegues. Foi aos 40 anos que sua carreira no cinema começou: Pereira dos Santos a convenceu a interpretar Sinhá Vitória em 'Vidas Secas', adaptação do romance de Graciliano Ramos. Apesar de elegante e sem prática, ela aceitou após diálogo. "Ela era bem diferente da personagem, sempre muito elegante, de salto alto, cabelo curto. Depois de um bom diálogo, ele a convenceu. Como ela não tinha nenhuma prática, ele explicava que ‘a câmera que vai até você, você não precisa ir até a câmera’", recorda a filha Wilma da Silva, de 80 anos.
O filme em preto e branco lançou seu rosto como símbolo do Cinema Novo. Seguiram papéis em 'A Hora e a Vez de Augusto Matraga' (1965), como Dionorá; 'Os Herdeiros' (1969); 'Perdida' (1976); e 'A Terceira Margem do Rio' (1994). Nos anos 2000, participou do documentário 'Como Se Morre no Cinema' (2002), sobre sua própria história, e de 'As Tranças de Maria' (2002), como Sá Virgilia. Um curta-documentário, 'Maria Ribeiro' (2010), foi gravado em sua terra natal com o jornalista Luís Osete.
Em 1964, mudou-se para a Europa para os estudos de cinematografia da filha, mas manteve laços com o Brasil via negócios. Deixou poesias que a família planeja publicar em livro. Faleceu em Genebra após derrame, deixando Wilma, a neta Karenine, de 46 anos, e oito bisnetos, incluindo dois do neto Krishna, falecido no ano anterior.