Nova pesquisa alerta que, mesmo se a humanidade alcançar emissões líquidas negativas e resfriar o planeta, o Oceano Austral pode liberar repentinamente seu calor acumulado, reiniciando o aquecimento. Esse 'arroto' poderia persistir por pelo menos um século. Cientistas enfatizam a necessidade de cortes rápidos nas emissões para minimizar tais riscos.
O Oceano Austral, que circunda a Antártica, absorveu mais de 90 por cento do calor excessivo adicionado pelos humanos à atmosfera desde a Revolução Industrial, junto com um quarto das emissões de CO2. Este vasto corpo d'água retém cerca de 80 por cento do calor absorvido por todos os oceanos, graças a correntes que transportam águas mais quentes para o sul e à ressurgência que traz água superficial fria para ser aquecida.
Um novo estudo de modelagem, publicado em 7 de novembro de 2025, explora um cenário em que os níveis de CO2 atmosférico dobram as quantidades pré-industriais, aumentando 1 por cento anualmente, e depois declinam 0,1 por cento a cada ano por meio de tecnologias de emissões negativas. Nesse caso, as temperaturas globais caem inicialmente à medida que a atmosfera, a terra e os oceanos esfriam. No entanto, a superfície do Oceano Austral fica mais fria e salgada devido à formação de novo gelo marinho — a água do mar congelada rejeita sal, densificando a camada superficial. Essa instabilidade permite que águas profundas mais quentes subam em um processo chamado convecção profunda, liberando o calor armazenado de forma abrupta.
"Em algum momento, a coluna d'água se torna instável, e é quando temos o evento de convecção profunda", explicou Svenja Frey, estudante de doutorado em oceanografia no GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel, na Alemanha, e coautora do artigo.
O 'arroto' de calor resultante — como os cientistas o chamaram — poderia impulsionar taxas de aquecimento planetário semelhantes às de hoje por pelo menos um século, mesmo sob emissões líquidas negativas. Embora a remoção de CO2 ainda resulte em uma redução geral de temperatura, os achados destacam incertezas na resposta da Terra à manipulação climática.
"Há uma incerteza muito grande na resposta do sistema terrestre às emissões líquidas negativas — não entendemos isso muito bem", disse Kirsten Zickfeld, cientista climática na Simon Fraser University que não esteve envolvida no estudo. "Podemos muito bem encontrar surpresas no caminho, como este artigo mostra."
Os céus mais claros do Oceano Austral, sem a poluição por aerossóis que resfria o Hemisfério Norte ao refletir a luz solar, o tornam particularmente eficaz no armazenamento de calor. Ric Williams, cientista de oceanos e clima na University of Liverpool que não participou da pesquisa, observou: "Fazer emissões negativas e reduzir nossa carga de carbono na atmosfera é uma coisa boa. Eu só adicionaria que, em vez de fazer emissões negativas, é melhor não fazer as emissões positivas em primeiro lugar."
Este modelo não é uma previsão, mas um passo para entender a dinâmica oceânica em cenários de resfriamento. Ele sublinha a urgência de cortar emissões agora para limitar o calor armazenado nos mares.