Os Estados Unidos estão boicotando a Cúpula de Líderes do G20 da África do Sul, citando alegações desacreditadas sobre ataques a afrikaners brancos e objeções ao que chama de agenda focada em diversidade e clima. A ausência sem precedentes da maior economia do mundo, ao lado de outros líderes ausentes da Argentina, China e Rússia por motivos variados, lançou uma sombra sobre o encontro em Joanesburgo.
A Cúpula de Líderes do G20 está sendo aberta em Joanesburgo sob relações internacionais tensas após a administração Trump optar por ignorar o evento.
De acordo com reportagens da NPR, os Estados Unidos estão boicotando a cúpula por alegações falsas baseadas em raça sobre o tratamento de afrikaners brancos na África do Sul e o que a administração descreve como a agenda de diversidade, equidade e inclusão da reunião. Desde que retornou ao cargo, o presidente Donald Trump acusou o governo sul-africano de confiscar terras de propriedade branca e permitir o assassinato de afrikaners brancos, acusações que autoridades e especialistas sul-africanos dizem não serem apoiadas por evidências.
No início deste mês, Trump disse a apoiadores: "Vocês sabem que temos uma reunião do G20 na África do Sul, a África do Sul nem deveria estar nos Gs mais, porque o que aconteceu lá é ruim," de acordo com a NPR.
Autoridades sul-africanas tentaram repetidamente rebater as alegações dos EUA. O presidente Cyril Ramaphosa manteve um tom comedido, dizendo esta semana sobre a ausência de Washington: "A ausência deles é a perda deles," em declarações reportadas pela NPR. Analistas dizem que o impasse é um golpe aos esforços de Pretória para exibir a África do Sul no palco global ao sediar a primeira cúpula do G20 em solo africano.
A disputa sublinha um cenário internacional mais fragmentado. William Gumede, professor associado da University of the Witwatersrand em Joanesburgo, descreveu a situação à NPR como "simbólica do momento global fraturado em que estamos" e disse que era "quase uma cúpula alternativa sem China e sem América".
Outras ausências notáveis adicionam à sensação de um encontro diminuído. O presidente argentino Javier Milei disse que não comparecerá em solidariedade a Trump, relata a NPR. O presidente chinês Xi Jinping, líder da segunda maior economia do mundo, também não virá; autoridades e analistas notam que ele reduziu recentemente viagens internacionais. O presidente russo Vladimir Putin também ficará afastado, pois enfrenta um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional pela guerra na Ucrânia.
Os temas oficiais da cúpula de "solidariedade, igualdade, sustentabilidade" atraíram críticas acentuadas de Washington. O secretário de Estado dos EUA Marco Rubio acusou a África do Sul de promover uma agenda de "DEI e mudança climática", linguagem que a NPR relata ser anátema à abordagem da administração Trump em fóruns multilaterais.
As tensões escalaram ainda mais com a chegada de dignitários estrangeiros à África do Sul. Ramaphosa disse a repórteres que os Estados Unidos fizeram uma abordagem de última hora sobre participação potencial. "Recebemos notificação dos Estados Unidos… sobre uma mudança de ideia sobre participar de alguma forma ou outra na Cúpula," disse ele, acrescentando que "os Estados Unidos, sendo a maior economia do mundo, precisam estar lá, então é agradável haver uma mudança de abordagem," de acordo com o relato da NPR de suas declarações.
A Casa Branca reagiu rapidamente. A secretária de imprensa Karoline Leavitt disse: "Os Estados Unidos não estão participando de conversas oficiais no G20 na África do Sul. Eu vi o presidente sul-africano falando um pouco contra os Estados Unidos e o presidente dos Estados Unidos e essa linguagem não é apreciada," relata a NPR.
Como os Estados Unidos assumirão a presidência rotativa do G20 da África do Sul, Leavitt disse que os EUA enviariam o chargé d'affaires da embaixada —visto por Pretória como um oficial júnior— para a entrega simbólica. O porta-voz de Ramaphosa respondeu no X, dizendo: "O presidente não entregará a um chargé," de acordo com a NPR.
Diplomatas disseram à Reuters que enviados do G20 ainda assim conseguiram concordar com um rascunho de declaração de líderes sem input dos EUA, com a África do Sul enfatizando questões como solidariedade com nações em desenvolvimento, desastres relacionados ao clima e transições para energia verde.
Em casa, a cúpula provocou reações mistas. Moradores de Joanesburgo, uma cidade há muito atormentada por infraestrutura em ruínas e faltas crônicas de eletricidade e água, reclamaram que as autoridades estão embelezando ruas e espaços públicos para delegações visitantes enquanto serviços básicos permanecem não confiáveis, relata a NPR. Críticos locais dizem que a limpeza cosmética destaca uma desconexão entre as ambições internacionais do governo e as realidades diárias dos cidadãos comuns.
Grupos da sociedade civil também estão usando a cúpula para destacar as crises sociais mais prementes da África do Sul. Em 21 de novembro, centenas de mulheres vestidas de preto encenaram um protesto de deitado de 15 minutos em um parque de Joanesburgo para chamar atenção para a violência baseada em gênero, que ativistas dizem matar em média cerca de 15 mulheres por dia. A ação, organizada pela sem fins lucrativos Women for Change, ocorreu na véspera do G20 e fez parte de uma campanha mais ampla exigindo medidas mais duras contra o feminicídio, de acordo com a Associated Press.
O confronto sobre raça e representação transbordou para uma "guerra de outdoors" em Joanesburgo. A NPR relata que uma organização afrikaner de direita erigiu placas descrevendo a África do Sul como "o país mais regulado por raça no mundo" em protesto contra políticas de ação afirmativa. Em resposta, Betereinders, um grupo afrikaner liberal, instalou um outdoor apresentando o time de rúgbi Springboks com jogadores brancos carregando o capitão negro Siya Kolisi. O anúncio é acompanhado por uma citação irônica de Trump, lendo: "Coisas terríveis estão acontecendo na África do Sul".
À medida que a cúpula avança para sua conclusão programada no domingo, diplomatas trabalham para garantir um comunicado conjunto entre os países presentes. Uma das questões-chave, dizem analistas, é se qualquer declaração final pode ter peso sem o apoio dos Estados Unidos, que não se espera que assine.