Quinhentos anos atrás, o primeiro mapa bíblico da Terra Santa foi impresso de trás para frente, com o Mediterrâneo mostrado a leste de Palestina. Apesar desse erro, o mapa gerou ideias sobre território e fronteiras que moldaram o pensamento renascentista e persistem hoje. Um novo estudo destaca seu papel na transformação da geografia bíblica em limites políticos.
Em 1525, o impressor Christopher Froschauer produziu a primeira Bíblia com um mapa da Terra Santa, criado por Lucas Cranach the Elder em Zúrich. O mapa retratava as estações das peregrinações dos israelitas no deserto e a divisão da Terra Prometida em doze regiões tribais, inspirado em tradições medievais e no historiador do século I Josephus. No entanto, continha uma falha significativa: a orientação estava invertida, colocando o Mar Mediterrâneo a leste de Palestina devido ao conhecimento europeu limitado da região.
Nathan MacDonald, Professor de Interpretação do Antigo Testamento na Universidade de Cambridge, descreve isso como "um dos maiores fracassos e triunfos da publicação". Em sua pesquisa, publicada em 29 de novembro de 2025 no The Journal of Theological Studies, MacDonald argumenta que o mapa reformulou a Bíblia para a era renascentista. Ele impôs divisões territoriais claras nos textos bíblicos, que Josué 13-19 não descreve consistentemente. "O mapa ajudou os leitores a entender as coisas mesmo que não fosse geograficamente preciso", observa MacDonald.
Essa inovação ocorreu em meio à Reforma Suíça, onde a interpretação literal das Escrituras era fundamental. O contexto de Zúrich tornou-a um local apropriado para o nascimento do mapa, servindo como uma ajuda visual aceitável quando imagens religiosas eram restritas. "Quando lançavam os olhos sobre o mapa de Cranach, pausando no Monte Carmelo, Nazaré, o Rio Jordão e Jericó, as pessoas eram levadas a uma peregrinação virtual", explica MacDonald.
Com o tempo, esses mapas influenciaram a cartografia mais ampla. Divisões espirituais medievais evoluíram para fronteiras políticas no final do século XV, espalhando ideias de nações-estado. "Mapas bíblicos que delineavam os territórios das doze tribos foram agentes poderosos no desenvolvimento e disseminação dessas ideias", escreve MacDonald. A Bíblia, acrescenta ele, "nunca foi um livro imutável. Ela está constantemente se transformando."
Hoje, tais mapas sustentam visões de fronteiras como ordenadas divinamente. MacDonald cita um vídeo da US Customs and Border Protection que cita Isaías 6:8 sobre a fronteira EUA-México, alertando contra a simplificação excessiva de textos antigos. "Devemos nos preocupar quando qualquer grupo afirma que sua forma de organizar a sociedade tem um fundamento divino ou religioso", diz ele. Poucas cópias de 1525 sobreviveram, incluindo uma na Wren Library do Trinity College Cambridge.