Cientistas descobriram como as retinas de aves operam sem oxigênio, dependendo em vez disso de um surto de glicose para energia. Esta descoberta, baseada em estudos de pintassilgos-zebra, resolve um enigma de 400 anos sobre a fisiologia ocular aviária. A adaptação destaca as soluções inesperadas da evolução para demandas visuais de alta energia.
As retinas de aves representam uma partida única dos tecidos oculares típicos de vertebrados. Ao contrário da maioria dos animais, onde vasos sanguíneos entregam oxigênio à camada sensível à luz no fundo do olho, as retinas espessas das aves carecem de tais vasos. Em vez disso, sustentam-se por glicólise, um processo que quebra açúcares sem oxigênio, embora exija muito mais glicose —15 vezes mais— para produzir energia equivalente. Pesquisadores liderados por Christian Damsgaard na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, examinaram pintassilgos-zebra, ou Taeniopygia guttata, usando minúsculos sensores de oxigênio inseridos em seus olhos. Os sensores revelaram que as camadas internas da retina não recebem oxigênio, pois ele difunde apenas da parte traseira do olho e não penetra toda a espessura. «Elas recebem oxigênio da parte de trás do olho, mas ele não pode difundir por toda a retina», explicou Damsgaard. A análise de genes metabólicos confirmou glicólise elevada em zonas privadas de oxigênio. O facilitador chave é o pecten oculi, uma estrutura em forma de ancinho de vasos sanguíneos nos olhos das aves, há muito suspeita de fornecer oxigênio, mas agora mostrada inundando a retina com glicose —quatro vezes a taxa das células cerebrais. Este mecanismo aborda como as aves mantêm a função vital das células nervosas apesar das imensas necessidades energéticas da retina. «A retina —especialmente a retina de ave— é um dos tecidos mais demandantes de energia em todo o reino animal», observou Luke Tyrrell na State University of New York at Plattsburgh, expressando surpresa com a ineficiência, mas reconhecendo benefícios potenciais para nitidez visual e voos em grandes altitudes não afetados por baixo oxigênio. Pavel Němec na Universidade Carlos em Praga descreveu a descoberta como um «caso claro que nos lembra que a evolução traz soluções muito contraintuitivas». A equipe de Damsgaard sugere implicações para a medicina humana, como engenhar células para suportar escassez de oxigênio pós-AVC. Os achados aparecem na Nature (DOI: 10.1038/s41586-025-09978-w), marcando uma mudança neurobiológica: «Temos a primeira evidência de que algumas neurônios podem funcionar sem oxigênio algum, e eles estão nas aves que voam em nossos jardins». O design avascular provavelmente evoluiu para aumentar a acuidade, trocando eficiência por clareza na visão crítica para voo.