Um novo estudo sugere que o cultivo de grãos de cereais facilmente tributáveis, como trigo e cevada, foi fundamental para o surgimento das primeiras grandes sociedades humanas há cerca de 5000 anos. Pesquisadores analisaram a evolução da linguagem e dados antropológicos para mostrar como os estados formaram redes de proteção em torno da produção de grãos. Essa mudança também levou à escrita para registros fiscais e a um declínio na saúde populacional.
As origens dos primeiros estados têm intrigado os estudiosos há muito tempo, com a agricultura frequentemente citada como motor da civilização. No entanto, um estudo publicado na Nature Human Behaviour argumenta que nem toda a agricultura era igual: grãos de cereais como trigo, cevada, arroz e milho forneceram o excedente necessário para tributação, possibilitando a formação de estados.
A agricultura surgiu pela primeira vez há cerca de 9000 anos, inventada independentemente pelo menos 11 vezes em quatro continentes. No entanto, sociedades em grande escala só emergiram cerca de 4000 anos depois, começando na Mesopotâmia, seguidas pelo Egito, China e Mesoamérica. Kit Opie, da University of Bristol, Reino Unido, e Quentin Atkinson, da University of Auckland, Nova Zelândia, investigaram essa lacuna usando métodos filogenéticos em árvores de famílias linguísticas, que mapeiam relações culturais, combinados com dados de centenas de sociedades pré-industriais.
Sua análise revelou que os estados eram improváveis sem produção generalizada de cereais, mas altamente prováveis quando os grãos eram a cultura principal. A agricultura intensiva correlacionava-se com estados, mas a direção era reversa: "Parecia mais provável que fossem os estados causando a intensificação, em vez da intensificação causar os estados", disse Opie. Uma vez estabelecidos, os estados podiam investir em irrigação e fertilização para aumentar a produção, criando excedentes tributáveis.
Os grãos provaram-se ideais para tributação devido aos seus campos fixos, crescimento visível, colheitas previsíveis e longa vida útil de armazenamento. "Culturas de raiz como mandioca ou batatas eram inúteis para tributação", observou Opie. Os estados atuavam como "redes de proteção", defendendo campos em troca de impostos. A escrita surgiu para registrar essas taxas, com adoção muito mais provável em sociedades tributárias.
Os estados também eliminaram gradualmente culturas não graníferas como raízes e frutas para maximizar terras tributáveis, uma medida ligada ao crescimento populacional neolítico, mas também a pior saúde, estatura mais baixa e problemas dentários. Críticos como Laura Dietrich, do Austrian Archaeological Institute, alertam que a abordagem pode simplificar excessivamente diferenças regionais, como por que a agricultura intensificada levou a estados no sudoeste da Ásia, mas não na Europa. David Wengrow, da University College London, enfatiza que não houve um único gatilho para o surgimento de estados em todo o mundo, apontando para a organização ritual no antigo Egito em vez de mera tributação.