O escritor francês Édouard Louis participou de um encontro com o público no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, nesta segunda-feira (9), para debater temas centrais de sua produção literária. O evento ocorreu em paralelo à Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), que apresenta adaptações de suas obras. Mediado por Helena Vieira e Renan Quinalha, o debate explorou a interseção entre o íntimo e o político em sua escrita.
Édouard Louis, fenômeno literário desde sua estreia com "O Fim de Eddy" em 2014, construiu uma obra que mescla autobiografia, sociologia e intervenção política. Nascido como Eddy Bellegueule em uma cidade operária no norte da França, ele superou pobreza, violência e homofobia para se tornar uma voz proeminente na literatura contemporânea.
No evento gratuito no Teatro Sérgio Cardoso, Louis revisitou sua infância, explicando como inicialmente via conflitos familiares como escolhas individuais. "Eu achava que meu pai era racista porque queria ser, que meu irmão era violento porque escolhia ser", afirmou. O contato com a sociologia revelou que esses comportamentos resultavam de estruturas coletivas de classe, masculinidade e opressão social, inspirando seu projeto literário de narrativas pessoais que evocam experiências coletivas.
Os mediadores descreveram suas memórias como um "encontro de duas vergonhas": a de ser pobre e a de ser homossexual. Louis recordou que, em ambiente operário, corpo, fala e sotaque eram fontes de humilhação, agravadas pelo estigma da sexualidade. "Achei que, se mudasse de classe, minha vergonha sexual desapareceria também", disse. A escrita emergiu como forma de fuga e transformação, mas trouxe novas dores: ao ascender socialmente, sentiu vergonha por ter se envergonhado de sua origem. "Quem tem que ter vergonha são as burguesias por ignorarem outras classes sociais", declarou.
A visita coincide com a MITsp, que exibiu "História da Violência" de 6 a 8 de março, dirigida por Thomas Ostermeier, e apresenta "Quem Matou Meu Pai" no Sesc Pinheiros. Louis atribui a aclamação de suas obras no Brasil à politização do cotidiano, impulsionada por desigualdades sociais e figuras como Jair Bolsonaro. Brincou: "Talvez eu seja apenas um brasileiro trancado no corpo de um francês".