Calor extremo provoca insuficiência renal entre trabalhadores migrantes nepaleses

No Centro Nacional de Rim em Katmandu, jovens nepaleses que retornam de empregos exaustivos no Oriente Médio estão cada vez mais lutando contra doença renal crônica causada por calor implacável e desidratação. Médicos ligam essa epidemia silenciosa às mudanças climáticas e às condições de trabalho exploratórias no Golfo. Medidas preventivas simples poderiam evitar muitos casos, mas as proteções continuam inadequadas.

O Centro Nacional de Rim em Katmandu realiza três sessões de diálise diárias, tratando até 165 pacientes que precisam visitar três vezes por semana pelo resto da vida, segundo o Dr. Rishi Kumar Kafle, que fundou a clínica há 28 anos. "Caso contrário, eles morrerão", disse Kafle. Entre os pacientes recentes, mais de 20% dos 138 internados nos últimos seis meses trabalharam no Golfo, onde mais de 1 milhão de migrantes nepaleses trabalham ao lado de milhões de asiáticos.

Surendra Tamang, 30 anos, exemplifica a crise. Aos 22, mudou-se para o Catar por seis anos de turnos de 12 horas montando andaimes em calor de até 50 graus Celsius. Em 2023, sintomas como falta de ar e mãos inchadas levaram ao diagnóstico de insuficiência renal em estágio final; seu empregador o enviou para casa. "Estou fraco, não consigo fazer nada", disse Tamang após uma sessão no início de outubro. A força de trabalho migrante do Nepal, 7,5%, principalmente homens de 20-29 anos, enfrenta exploração, incluindo salários retidos, passaportes e condições inseguras.

A doença renal crônica (DRC) afeta 674 milhões em todo o mundo, com 90% em áreas de baixa renda sem cuidados, segundo a Organização Mundial da Saúde. Um estudo de 2022 liga altas temperaturas e trabalho exigente ao aumento da DRC, projetada como a quinta principal causa de morte prematura até 2050. No Brasil, cada aumento de 1 grau Celsius elevou as internações renais em quase 1% de 2000-2015. Dados de Nova York mostraram 2-3% mais visitas renais em dias de calor extremo. "Quando há ondas de calor, nossas emergências ficam ocupadas cuidando de pessoas com lesões renais", disse a Dra. Meera Nair Harhay da Universidade Drexel.

Um relatório iminente da Universidade de Gotemburgo sobre 404 pacientes de Katmandu encontrou um terço dos casos de diálise masculina ligado a trabalho em climas quentes como Arábia Saudita, Catar e Dubai. Esses homens começam diálise 17 anos mais cedo em média. Estresse por calor causa desidratação, sobrecarregando a regulação de fluidos e resíduos dos rins. Globalmente, 70% dos trabalhadores enfrentam calor excessivo anualmente; o Golfo aquece duas vezes a média global.

A enfermeira Deepa Adhikari nota o impacto: "Os pacientes estão estressados financeira, física e emocionalmente." Casos como Buddhi Bahadur Kami, 41 anos, que pintou tanques na Arábia Saudita por 11 anos, e Kul Bahadur Dulal, 46 anos, motorista de caminhão lá por uma década, destacam o padrão. "Eu ganhei muito dinheiro, mas tudo foi para pagar tratamento", disse Dulal.

O Dr. Barrak Alahmad de Harvard chama de "duplo golpe das mudanças climáticas" para migrantes, que enfrentam desastres em casa e calor no exterior. A riqueza petrolífera do Golfo financia projetos como estádios, mas proteções aos trabalhadores atrasam. Regras do Catar de 2021 proíbem trabalho acima de 32,1 graus Celsius de temperatura de bulbo úmido e exigem verificações, mas a aplicação é fraca. Na Nicarágua, intervenções da La Isla Network—mais pausas, sombra, hidratação—reduziram lesões renais em 70% e aumentaram produtividade em 19%. "Quando há uma solução pronta que é um grande ganha-ganha", disse o fundador Jason Glaser.

Kafle urge prevenção: triagens precoces e cuidados financiados pelo Golfo. "Tratamento não é a resposta. Prevenção é." O orçamento de saúde do Nepal é ínfimo comparado ao da Arábia Saudita, deixando clínicas subfinanciadas.

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