Uma nova revisão questiona a visão de longa data de que grupos tradicionais caçadores-coletoras operam com puro altruísmo e igualdade. Pesquisadores argumentam que o que parece ser partilha igualitária frequentemente decorre do interesse próprio e do desejo de autonomia. Esta perspetiva baseia-se em evidências antropológicas de várias culturas.
Os antropólogos têm retratado há muito as sociedades caçadoras-coletoras como modelos de igualdade, onde recursos como carne caçada são partilhados generosamente entre os membros do grupo. No entanto, uma recente revisão de Chris von Rueden, da University of Richmond, Virgínia, e Duncan Stibbard Hawkes, da Durham University, Reino Unido, publicada em Behavioral and Brain Sciences, contesta este cliché.
"Não há sociedade com igualdade verdadeira", afirma von Rueden. Os investigadores examinaram dados etnográficos e descobriram que a distribuição igual de riqueza frequentemente mascara motivações práticas em vez de um impulso inato para a justiça. Por exemplo, o filósofo do século XIX Friedrich Engels baseou-se em relatos dessas sociedades para apoiar ideias marxistas de altruísmo humano como estado padrão.
Na realidade, a partilha pode ser autointeressada. Os caçadores podem distribuir carne para evitar exigências persistentes dos outros, como documentado em grupos de recolectores. Entre as comunidades !Kung em Angola, Botsuana e Namíbia, cerca de 34 por cento das conversas diurnas envolvem queixas sobre avareza.
A igualdade pode também surgir da proteção da autonomia individual. O povo Mbendjele na República do Congo usa um processo chamado mosambo para abordar publicamente violações de direitos e resistir à coerção. "As pessoas não gostam de intimidação. Não gostam de coerção. Não gostam de 'homens grandes'", nota Manvir Singh, antropólogo na University of California, Davis, que não esteve envolvido no estudo.
As hierarquias persistem de forma subtil, com estatuto concedido àqueles que mostram humildade e cooperação, como visto entre os Tsimané na Bolívia. Jerome Lewis, antropólogo no University College London, elogia a revisão como uma "contribuição importante" que destaca a diversidade do igualitarismo. Ele critica a imagem de "selvagem nobre" de Engels como desatualizada e enviesada, enfatizando que estas sociedades, algumas persistindo há mais de 50.000 anos, oferecem modelos alternativos de organização social em comparação com nações de alto rendimento.