Dois pacientes com lesões medulares completas apresentaram retomada de sensações e pequenos movimentos duas semanas após receberem injeções de polilaminina por ordem judicial. A substância, desenvolvida por pesquisadores da UFRJ, está em fase pré-clínica e aguarda aprovação da Anvisa para testes em humanos em maior escala.
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderados pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, relataram avanços em dois casos de pacientes com lesões medulares totais. Ambos receberam a polilaminina, uma substância derivada da placenta humana, há duas semanas, autorizados por decisões judiciais.
Luiz Fernando Mozer, 37 anos, sofreu uma lesão em acidente de motocross no início de dezembro, em Cachoeiro do Itapemirim (ES). Menos de 48 horas após a aplicação, ele sentiu toques nos membros inferiores. Em avaliação de 29 de dezembro, contraiu músculos da coxa e região anal, ampliando a sensibilidade.
O segundo paciente, de 35 anos, ficou paraplégico após queda de moto e recebeu o tratamento em hospital do Rio de Janeiro. Ele realizou um leve movimento no pé e registrou sensibilidade nas pernas durante testes recentes.
O neurocirurgião Bruno Alexandre Côrtes, do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio, realizou os procedimentos e afirmou: "Eu operei o rapaz e vi uma transecção completa da medula. Não havia a menor chance de esse paciente ter qualquer movimento ou sensibilidade em condições normais. A única explicação é a polilaminina."
Tatiana Coelho de Sampaio destacou: "Não temos dúvidas de que houve ação da polilaminina e que a medula dos pacientes está respondendo ao tratamento. Mas, agora, precisamos proteger as pessoas. Precisamos trabalhar dentro do estudo clínico para coleta de dados e controle."
A polilaminina demonstrou resultados promissores em testes pré-clínicos, como no caso de Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, que recuperou movimentos após aplicação 24 horas pós-acidente e cinco meses de fisioterapia. No entanto, a Anvisa ainda avalia a transição para fase clínica, priorizando segurança, conforme nota da agência sobre dados submetidos pelo laboratório Cristália em 19 de dezembro.
O fisiatra Marcelo Ares, da AACD, enfatizou a raridade de recuperações em lesões completas e a necessidade de distinguir efeitos da droga de regeneração natural. A substância aplica-se apenas a lesões recentes, em até 72 horas, e requer reabilitação intensa. Até agora, três de quatro ordens judiciais foram executadas, com custos divididos entre voluntários, poder público e Cristália, detentor da patente com a UFRJ.