A demissão da regente Ligia Amadio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais gerou indignação na comunidade musical brasileira e internacional, após ela criticar os baixos salários dos músicos. O episódio, ocorrido semanas depois de uma audiência pública, levou a protestos, manifestos e um abaixo-assinado com mais de 13 mil assinaturas.
A recente demissão da regente Ligia Amadio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG) desencadeou reações indignadas de maestros, instrumentistas, compositores e associações de músicos. A saída de Amadio dos cargos de regente titular e diretora musical mobilizou a cena brasileira do repertório clássico nas últimas semanas, com manifestos nas redes sociais assinados por nomes da América Latina e Europa, como a Orquestra Sinfônica Nacional da Argentina e a Associação Mulheres na Música, da Espanha.
No sábado (31), foliãs do Carnaval de Belo Horizonte protestaram contra a demissão com uma faixa do bloco Sagrada Profana: "Viva Ligia Amadio". A OSMG, que completa meio século em 2026, é um dos principais corpos artísticos do Palácio das Artes, administrado pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais.
A crise começou em 26 de novembro de 2025, durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais sobre precarização do trabalho dos músicos. Amadio afirmou que a OSMG é "a orquestra mais mal paga deste país" e que um músico de fila ganha R$ 1.618,72 por mês. Pouco mais de um mês depois, em janeiro de 2026, seu contrato foi encerrado.
A FCS explicou que o fim do contrato deve-se a uma readequação da programação para os 55 anos do Palácio das Artes, convidando regentes históricos. Sobre salários, a fundação informou remuneração média de R$ 7.868,91 em janeiro de 2026, com mínimo de R$ 4.289,10 e máximo de R$ 14.356,88, negando o valor citado por Amadio. No entanto, contracheques acessados pela reportagem mostram um instrumentista recebendo pouco mais de R$ 1.600 como 13º salário em 2025, outro R$ 4.500 em dezembro de 2025 e um terceiro R$ 7.000.
Amadio preferiu não comentar. Maestro Roberto Minczuk, da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, disse: "A maestra Lígia Amadio precisa ser respeitada, valorizada e reconhecida pelo excelente trabalho à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (...) Um contrato de um maestro sério e comprometido com o trabalho jamais poderia ser terminado assim". Outros, como Carlos Prazeres, Cinthia Alireti e Tiago Flores, lamentaram a decisão. Instrumentistas como Elisa Fukuda e Emmanuele Baldini criticaram o afastamento. Pianista Jean Louis Steuerman escreveu: "É simplesmente lamentável que, por defender o interesse de seus músicos (...), foi afastada da orquestra". A Associação Mulheres na Música pediu reparação à dignidade profissional de Amadio. Um abaixo-assinado pela volta dela reunia mais de 13 mil assinaturas até 3 de fevereiro de 2026.