Desde 2018, centenas de mulheres na Nicarágua têm sofrido perseguição, prisão e exílio forçado sob o regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo. Histórias como as de Mayela Campos, Vlada Krassova Torres e Brisa Bucardo ilustram de que forma a violência política afeta dissidentes, ativistas e defensores de direitos de maneiras variadas. Especialistas destacam os impactos duradouros na sua saúde mental e os desafios de reconstruir vidas no estrangeiro.
A crise sociopolítica da Nicarágua, iniciada em abril de 2018, levou a uma repressão estatal sustentada contra vozes críticas, com pelo menos 1.485 pessoas reconhecidas como prisioneiros políticos desde então, segundo organizações de direitos humanos. As mulheres enfrentaram uma ampla gama de violências, incluindo vigilância, ameaças, agressões, exílio, deslocamento forçado, desnacionalização, confisco de bens e desaparecimentos forçados, como explica a socióloga Elvira Cuadra, diretora do Centro de Estudos Transdisciplinares da América Central (Cetcam). Mulher de 31 anos, ex-estudante da Universidade Nacional de Engenharia (UNI), em Manágua, Mayela Campos abandonou os estudos em 2018 devido a ameaças de grupos ligados à União Nacional de Estudantes da Nicarágua (UNEN). Recebeu intimidações graves, como “Vamos te estuprar e te matar”, o que a levou ao exílio em 2019. Ao retornar, foi sequestrada pela polícia em 21 de agosto de 2023, julgada num processo simulado e condenada a oito anos por alegado tráfico de drogas. Passou 381 dias na prisão antes de ser libertada e banida para a Guatemala, a 5 de setembro de 2024, com outras 134 pessoas. Em maio de 2025, fixou-se em Espanha, mas sofre ataques de pânico, insónias e stress pós-traumático. “O meu cérebro não processa as coisas da mesma forma que antes”, diz ela. Vlada Krassova Torres, ativista trans, viu a perseguição intensificar-se durante os protestos de 2018, com assédio da Juventude Sandinista. Após um incidente violento contra uma colega, foi levada para uma casa segura e exilada para a Costa Rica a 18 de agosto de 2018. Em novembro de 2025, chegou a Espanha com outros 244 nicaraguenses através do Programa Nacional de Reassentamento. Enfrentou barreiras ao reconhecimento da identidade de género, esperando um mês e meio pela resolução. “Somos apagadas, ignoradas”, afirma sobre a falta de uma lei de identidade de género na Nicarágua. Brisa Bucardo, jornalista miskitu e defensora de direitos indígenas, enfrentou ameaças desde 2017 por denunciar violência contra mulheres e corrupção no seu território. Em maio de 2018, fugiu para a Honduras e depois para a Costa Rica em meio à militarização da zona do Río Coco. “O exílio nunca permite uma vida normal”, relata, destacando barreiras económicas e emocionais enquanto pessoa indígena em países recetores não adaptados. Cuadra sublinha que não há exílios voluntários; todos são forçados e parte de uma política estatal de violência contra as mulheres. As mulheres afetadas reconstroem redes no exterior, lidando com depressão e ansiedade, enquanto o regime prossegue ataques mesmo fora do país.