Cientistas identificaram uma versão em imagem especular do aminoácido cisteína, conhecida como D-cisteína, que pode desacelerar o crescimento de certos cancros enquanto poupa células saudáveis. A molécula visa um transportador específico na superfície das células cancerosas, perturbando processos metabólicos chave no interior. Em estudos com camundongos, reduziu significativamente a progressão de tumores mamários agressivos sem efeitos secundários principais.
Uma equipa internacional de investigação das Universidades de Genebra e Marburg desenvolveu uma terapia potencial contra o cancro usando D-cisteína, uma forma rara em imagem especular do aminoácido cisteína. Ao contrário dos tratamentos convencionais que frequentemente danificam tecidos saudáveis, a D-cisteína é absorvida selectivamente por certas células cancerosas via um transportador de superfície único. Uma vez no interior, inibe a enzima mitocondrial NFS1, essencial para produzir aglomerados de ferro-enxofre necessários para a respiração celular, produção de DNA e estabilidade genética. Os experimentos que mostram que a D-cisteína suprime fortemente a proliferação de células cancerosas em condições laboratoriais, enquanto as células saudáveis permanecem inafectadas. «Esta diferença entre células cancerosas e células saudáveis explica-se facilmente: a D-Cys é importada para as células via um transportador específico presente apenas na superfície de certas células cancerosas», disse Joséphine Zangari, estudante de doutoramento no laboratório de Jean-Claude Martinou na Universidade de Genebra e primeira autora do estudo. Análises adicionais revelaram que bloquear a NFS1 conduz a uma respiração celular reduzida, aumento de danos no DNA e paragem da divisão celular nas células cancerosas. Em colaboração com a equipa de Roland Lill na Universidade de Marburg, os investigadores detalharam como esta perturbação priva as células cancerosas de fontes vitais de energia. «Bloqueia uma enzima essencial chamada NFS1, localizada nas mitocôndrias — as 'centrais energéticas' da célula. Esta enzima desempenha um papel chave na produção de aglomerados de ferro-enxofre, pequenas estruturas indispensáveis para muitos processos como respiração celular, produção de DNA e RNA, e manutenção da integridade genética», explicou Lill. Testes in vivo em camundongos com tumores mamários agressivos demonstraram resultados promissores: o crescimento tumoral abrandou substancialmente e os animais não exibiram efeitos adversos significativos. «Este é um sinal muito positivo — agora sabemos que é possível explorar esta especificidade para visar certas células cancerosas», notou Jean-Claude Martinou, professor honorário na Universidade de Genebra. Os achados, publicados na Nature Metabolism em 2025, sugerem que a D-cisteína pode oferecer um tratamento selectivo para cancros que expressam altos níveis do transportador, ajudando potencialmente a prevenir metástases. São necessários estudos adicionais em humanos para avaliar segurança e dosagem.