Uma análise detalhada de uma cavidade nasal neandertal bem preservada revelou que seus grandes narizes não foram moldados por adaptações a climas frios como se pensava anteriormente. As descobertas do espécime do Homem de Altamura desafiam ideias antigas sobre a evolução neandertal. Pesquisadores usaram imagens avançadas para examinar estruturas internas dentro do crânio.
Os neandertais, ou Homo neanderthalensis, viveram entre cerca de 400.000 e 40.000 anos atrás. Muitos pesquisadores haviam proposto que estruturas distintas em suas cavidades nasais os ajudaram a se adaptar a condições glaciais repetidas aquecendo o ar inalado em seus grandes narizes. No entanto, evidências de fósseis danificados haviam deixado o quadro completo incerto.
Agora, Costantino Buzi na Universidade de Perugia na Itália e seus colegas analisaram a cavidade nasal do Homem de Altamura, um espécime neandertal datado entre 172.000 e 130.000 anos. Descoberto na caverna Lamalunga perto de Altamura no sul da Itália, o esqueleto está embutido em rocha e coberto com concreções de pipoca—pequenos nódulos de calcita—dando-lhe uma aparência semelhante a coral. “É provavelmente o fóssil humano mais completo já descoberto,” diz Buzi.
Incapazes de remover o delicado espécime, a equipe navegou por passagens estreitas da caverna com um endoscópio para reconstruir digitalmente suas estruturas ósseas nasais internas. “Esta é certamente a primeira vez que vimos claramente essas estruturas em um fóssil humano,” diz Buzi.
Surpreendentemente, a análise não encontrou evidência de características chave previamente consideradas definidoras para neandertais, como uma crista de projeção medial vertical, inchaço nas paredes da cavidade nasal ou falta de um teto ósseo sobre o sulco lacrimal. Apesar disso, a morfologia geral, datação e genética do Homem de Altamura confirmam que é um neandertal. “Finalmente podemos dizer que alguns traços considerados diagnósticos no crânio neandertal não existem,” diz Buzi.
A grande cavidade nasal parece ligada a uma estrutura craniana geral maior em vez de adaptação ao frio. A equipe observou que os cornetos—estruturas em forma de pergaminho nas paredes nasais—são bastante grandes, o que ajudaria a aquecer o ar. “Esses resultados indicam que a forma facial típica neandertal não foi impulsionada por adaptação respiratória ao frio, mas sim por fatores de desenvolvimento e proporções corporais gerais,” diz Ludovic Slimak na Universidade de Toulouse na França.
O estudo se alinha com pesquisa de setembro por alguns do mesmo time, sugerindo que uma adaptação única do pescoço sob pressões glaciais impulsionou a evolução facial neandertal, incluindo sua mandíbula saliente. “Tudo nos neandertais foi enfiado na ideia de que eles são adaptados ao frio, o que é completa besteira,” diz Todd Rae na Universidade de Sussex, Reino Unido. Rae adiciona que os neandertais podem ter lutado com o frio, especialmente à medida que humanos modernos de origens tropicais prosperaram enquanto os neandertais se extinguiram no máximo glacial final.
Publicado em PNAS (DOI: 10.1073/pnas.2426309122), as descobertas fornecem evidência direta dos sistemas de respiração neandertal e remodelam o entendimento de sua anatomia.