Pesquisadores do Scripps Research descobriram como o útero sente forças físicas durante o trabalho de parto, usando sensores moleculares para coordenar contrações. O estudo identifica canais PIEZO1 e PIEZO2 que detectam pressão e alongamento, explicando por que o parto pode parar se estes forem perturbados. Descobertas podem melhorar tratamentos para complicações da gravidez.
O parto depende de mais do que hormônios; forças físicas como alongamento e pressão desempenham um papel chave no desencadeamento de contrações uterinas eficazes. Um novo estudo do Scripps Research, publicado na revista Science, detalha como o útero usa sensores especializados para responder a essas forças no nível molecular. A pesquisa destaca dois canais iônicos: PIEZO1, encontrado no músculo liso do útero, que sente a pressão crescente durante as contrações, e PIEZO2, localizado em nervos sensoriais ao redor do colo do útero e da vagina, que se ativa quando os tecidos se esticam com o movimento do bebê. Esses sensores convertem sinais mecânicos em respostas elétricas e químicas que sincronizam a atividade muscular. «À medida que o feto cresce, o útero se expande dramaticamente, e essas forças físicas atingem o pico durante o parto», diz a autora principal Ardem Patapoutian, investigadora do Howard Hughes Medical Institute no Scripps Research. «Nosso estudo mostra que o corpo depende de sensores de pressão especiais para interpretar esses sinais e traduzi-los em atividade muscular coordenada». Experimentos em modelos de camundongos demonstraram a importância dos sensores. Quando PIEZO1 e PIEZO2 foram removidos, as contrações enfraqueceram e os partos foram atrasados, mostrando que os sistemas normalmente se compensam mutuamente. Os sensores também regulam a connexina 43, uma proteína que forma junções gap que ligam células musculares para ação unificada. «A connexina 43 é a fiação que permite que todas as células musculares atuem juntas», explica a primeira autora Yunxiao Zhang, pesquisadora pós-doutoral no laboratório de Patapoutian. «Quando essa conexão enfraquece, as contrações perdem força». Amostras de tecido uterino humano espelharam os padrões dos camundongos, sugerindo mecanismos semelhantes em humanos. Isso se alinha com observações de que bloquear nervos sensoriais, como em algumas peridurais, pode prolongar o parto ao reduzir o feedback que fortalece as contrações. A descoberta aponta para terapias futuras, como modular a atividade PIEZO para prevenir partos prematuros ou auxiliar partos parados. Também ressalta como o sensoriamento mecânico se integra com controles hormonais, como progesterona, para cronometrar contrações com precisão. Patapoutian, que compartilhou o Prêmio Nobel de 2021 por descobrir canais PIEZO, observa: «O parto é um processo em que coordenação e timing são tudo. Estamos agora começando a entender como o útero atua como músculo e metrônomo para garantir que o parto siga o ritmo próprio do corpo». O estudo, intitulado «Canais PIEZO ligam forças mecânicas a contrações uterinas no parto», envolveu colaboradores do Scripps Research, University of California San Diego e Washington University School of Medicine.