Um acordo voluntário para conter o desmatamento impulsionado pela soja na Amazônia está ruindo em meio a mudanças políticas no Brasil. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais anunciou planos de saída após a eliminação de benefícios fiscais no estado de Mato Grosso. Especialistas alertam que isso pode acelerar a perda da floresta pluvial e comprometer esforços de sustentabilidade.
Há quase 20 anos, um grupo de lobby brasileiro representando traders e processadores de soja lançou a moratória da soja na Amazônia, um pacto voluntário que proíbe os membros de comprar soja de terras desmatadas após julho de 2008. Defensores creditam o acordo pela salvaguarda de áreas florestais enquanto permitem que a produção de soja floresça em terras limpas antes de 2008 ou pastagens, onde a produção quadruplicou desde 2006. O acordo agora enfrenta ameaças existenciais. Em 1º de janeiro, uma nova lei em Mato Grosso — o principal estado produtor de soja — eliminou incentivos fiscais anteriormente avaliados em cerca de US$ 840 milhões de 2019 a 2024 para participantes da moratória. Em resposta, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), que inclui gigantes como Cargill, Bunge e ADM, afirmou que iniciou discussões de retirada. A ABIOVE enfatizou que outras medidas, como o Código Florestal do Brasil, persistirão, e a expertise de monitoramento ganha em quase duas décadas permanece valiosa. Críticos da moratória, incluindo sojicultores e pecuaristas que dependem de soja para ração animal, argumentam há muito que ela favorece traders multinacionais em detrimento dos produtores locais, rotulando-os como um “cartel de compradores”. As tensões escalaram no ano passado quando o regulador antitruste do Brasil ordenou que as empresas cessassem o cumprimento ou enfrentassem multas. Defensores ambientais deploram a jogada como míope. “A saída dos grupos agroalimentares da moratória é inteiramente autodestrutiva”, disse Glenn Hurowitz da Mighty Earth. “O sucesso comercial dessas empresas dependeu da moratória da soja.” João Brites da HowGood chamou a partida de “perda enorme”, destacando riscos à sequestro de carbono da Amazônia, biodiversidade e ciclo hidrológico. O desmatamento poderia perturbar padrões de chuva essenciais para a agricultura regional, observou. Ane Alencar do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia descreveu o anúncio da ABIOVE como “um sinal muito ruim de que o mercado não quer mais seguir realmente nessa direção de sustentabilidade.” O desenvolvimento segue a COP30 em Belém, onde o Brasil reafirmou compromissos de proteção florestal, contrastando com recuos globais da ação climática. Enquanto a Cargill visa cadeias de suprimento livres de desmatamento até 2030, especialistas como Brites apontam que isso permite sourcing de novas derrubadas no interim. Hurowitz alertou para backlash dos consumidores, ecoando pressões que geraram a moratória há duas décadas, e notou uma indiferença mais ampla da elite à natureza.