Um novo estudo sugere que um fungo quítrido mortal, responsável pelo declínio de centenas de espécies de anfíbios, se originou no Brasil e se espalhou globalmente através do comércio internacional de carne de rã-touro. Dados genéticos e comerciais apontam para rãs-touro cultivadas no Brasil como o vetor principal. Pesquisadores pedem salvaguardas mais fortes para prevenir ameaças semelhantes à vida selvagem.
O fungo quítrido Batrachochytrium dendrobatidis, conhecido como Bd, causou colapsos populacionais em pelo menos 500 espécies de sapos e rãs em todo o mundo. Um estudo publicado na Biological Conservation desafia reivindicações anteriores, fornecendo evidências de que a linhagem Bd-Brasil surgiu no Brasil por volta de 1916, bem antes das rãs-touro serem introduzidas lá em 1935 e nos anos 1970. Liderado por cientistas da State University of Campinas (UNICAMP) em São Paulo, a pesquisa analisou espécimes de museus, dados genéticos de fazendas de rãs e registros de comércio internacional. De 2.280 espécimes de anfíbios coletados entre 1815 e 2014 de museus globais, 40 testaram positivo para Bd. Os casos confirmados mais antigos foram de 1915 na região dos Pireneus na França, envolvendo rãs Alytes obstetricans, enquanto um espécime de 1964 do Rio de Janeiro carregava a linhagem. «Este genótipo é altamente prevalente em diferentes espécies nativas brasileiras, com registros muito antigos. Quando olhamos para outros lugares, os registros são muito mais recentes e ocorrem apenas em rãs-touro e outras espécies exóticas», disse Luisa P. Ribeiro, primeira autora do estudo e ex-aluna de doutorado do Institute of Biology da UNICAMP. A equipe revisou 3.617 rotas de comércio de carne de rã em 48 países, identificando oito caminhos principais para a disseminação do Bd-Brasil. O Brasil exportou rãs-touro para os Estados Unidos de 1991 a 2009, e os EUA as enviaram para a Coreia do Sul em 2004 e 2008. A linhagem, menos agressiva que a variante Bd-GPL de origem asiática, aparece em espécies brasileiras cultivadas e selvagens. Financiado pela FAPESP como parte do projeto «From Natural History to the Conservation of Brazilian Amphibians», coordenado por Luís Felipe Toledo, os achados destacam os riscos do comércio de vida selvagem. Especialistas pedem regras de importação mais rigorosas, triagem de patógenos, quarentenas e monitoramento global para proteger anfíbios de tais invasões.