Duas pragas principais de culturas, a lagarta-do-cartucho-do-algodão e a lagarta-do-espiga-do-milho, cruzaram-se no Brasil, criando híbridos resistentes a múltiplos pesticidas. Esse desenvolvimento representa riscos para a produção de soja e a segurança alimentar mundial. Especialistas alertam para perdas potenciais de rendimento e impactos ambientais se as pragas se espalharem sem controle.
No Brasil, a lagarta-do-cartucho-do-algodão (Helicoverpa armigera) chegou em 2013, juntando-se à lagarta-do-espiga-do-milho nativa (Helicoverpa zea), ambas conhecidas como superpragas por seus danos generalizados às culturas. Essas mariposas, que se alimentam de uma variedade de plantas, incluindo milho, tomates e soja, agora hibridizaram, trocando genes que conferem resistência a pesticidas. Análise genética de quase 1.000 mariposas coletadas na última década mostra que um terço dos indivíduos de H. armigera carrega genes de resistência à toxina Bt adquiridos de H. zea. Essa resistência se originou na América do Norte, onde o milho Bt foi introduzido nos anos 1990, e desde então se espalhou para o sul. Inversamente, quase todos os H. zea no Brasil agora possuem resistência a piretróides de H. armigera. «Tem o potencial de ser um problema enorme», diz Chris Jiggins, da Universidade de Cambridge. A capacidade das pragas de viajar longas distâncias complica os esforços de controle, e os híbridos poderiam devastar as colheitas de soja, mais de 90% das quais no Brasil são variedades Bt geneticamente modificadas que produzem uma toxina de Bacillus thuringiensis. As exportações de soja do Brasil alimentam pessoas e gado globalmente, então rendimentos reduzidos poderiam elevar os preços dos alimentos e incentivar mais desmatamento para expandir terras agrícolas, aumentando as emissões de gases de efeito estufa. «Estamos simplesmente boquiabertos com a rapidez com que aconteceu», acrescenta Jiggins. Especialistas como Angela McGaughran, da Universidade de Waikato, destacam como a conectividade global e as mudanças climáticas agravam tais invasões. Para combater a resistência, recomenda-se que os agricultores plantem refúgios de culturas não Bt, embora o cumprimento seja inconsistente. Novas linhagens Bt de múltiplas toxinas estão surgindo, mas Bruce Tabashnik, da Universidade do Arizona, enfatiza a preservação das proteções atuais por meio de melhor gestão. Embora a hibridização espalhe a resistência, a evolução intraespecífica, como vista na China com H. armigera, permanece a principal preocupação. As descobertas, detalhadas em um preprint no bioRxiv (DOI: 10.64898/2025.12.25.696198), sublinham a necessidade de monitoramento vigilante de pragas em todo o mundo.