Cientistas que colaboram com agricultores no Senegal demonstraram que enriquecer o solo com nitrogênio reduz os danos do gafanhoto senegalês e duplica as colheitas de painço. Essa abordagem torna as culturas menos atraentes para as pragas ao alterar seu conteúdo nutricional. Os achados, testados em fazendas reais, oferecem uma ferramenta sustentável para gerenciar insetos migratórios.
Enxames de gafanhotos representam uma ameaça persistente à agricultura global, capazes de devastar culturas em áreas vastas equivalentes a grandes cidades como Nova Iorque ou Phoenix. Arianne Cease, que lidera a Global Locust Initiative da Arizona State University, passou mais de 15 anos estudando esses insetos e maneiras de mitigar seu impacto. A pesquisa mais recente de sua equipe, publicada em Scientific Reports em 2026, revela uma estratégia simples baseada no solo que contém surtos. O estudo focou no gafanhoto senegalês, que frequentemente danifica culturas em grupos menores em vez de formar enxames massivos. Em parceria com comunidades que colaboraram anteriormente em projetos menores, os pesquisadores trabalharam com 100 agricultores em duas aldeias senegalesas. Cada agricultor plantou duas parcelas de painço: uma tratada com fertilizante de nitrogênio e outra não tratada. Os resultados mostraram benefícios claros nas parcelas tratadas. Elas abrigaram menos gafanhotos, exibiram menos danos nas folhas e renderam o dobro de painço na colheita. Medições tomadas três vezes durante a estação de crescimento confirmaram as reduções, sem aumento de outras pragas. Cease explicou o mecanismo: solos pobres em nutrientes produzem plantas ricas em carboidratos, mas pobres em proteínas, criando uma 'dieta de donut' ideal para as necessidades energéticas dos gafanhotos durante a migração. O enriquecimento com nitrogênio altera esse equilíbrio, aumentando as proteínas e reduzindo os carboidratos, o que impede os insetos de prosperarem. «Essa descoberta representa um passo importante para a gestão sustentável de pragas migratórias, oferecendo uma ferramenta baseada na comunidade que expande as opções de tratamento disponíveis», disse Cease. O autor principal, Mamour Touré, da Université Gaston Berger em Saint-Louis, Senegal, destacou o valor prático: «Os resultados são de grande importância para a comunidade científica e também para os agricultores senegaleses. O estudo deu a eles uma melhor compreensão dos gafanhotos e locusts, bem como uma forma prática de controlá-los no nível local». Embora o ensaio tenha usado fertilizante, os esforços em andamento enfatizam o composto para sustentabilidade a longo prazo. O financiamento da USAID terminou no início de 2025, mas os agricultores adotaram o compostagem de forma independente, abandonando a prática de queimar resíduos de culturas. Touré observou: «Os agricultores afirmaram unanimemente que não queimam mais resíduos de culturas após limpar a terra, mas praticam compostagem para fertilizar seus campos, ajudando assim a reduzir infestações de gafanhotos». A equipe agora busca financiamento para estender esse método a outras regiões afetadas por locusts. Para os Estados Unidos, que não têm locusts nativos, mas enfrentam pragas de gafanhotos como as espécies do 'Dirty Dozen', a pesquisa é relevante. Cease alertou para uma possível expansão do locust da América Central, prevendo que o Texas poderia se tornar habitat adequado em 10 a 15 anos.