O presidente Gabriel Boric surpreendeu ao anunciar uma reforma constitucional que transfere as funções de segurança da Gendarmería para o Ministério da Segurança Pública, em resposta à Operação Apocalipsis que deteve 44 gendarmes por corrupção prisional. A medida separa a custódia de reclusos da reinserção social, que irá para um novo órgão sob Justiça. As autoridades enfatizam que visa combater o crime organizado e limpar a instituição.
A Operação Apocalipsis, desenvolvida desde 2022 pelo Ministério Público e PDI, terminou com a detenção de 66 pessoas, incluindo 44 funcionários da Gendarmería, em sete regiões: Metropolitana, O’Higgins, Maule, Biobío, Araucanía, Ñuble e Los Ríos. A operação, com mais de 500 agentes, desmantelou uma rede que facilitava a entrada de itens proibidos como drogas, armas e celulares em instalações como Santiago 1 e o Centro Penitenciário Feminino de San Joaquín, por meio de subornos superiores a 6,3 milhões de dólares.
O procurador regional Marcos Pastén detalhou que os gendarmes se coligavam com civis conhecidos como “manilleros”, que cobravam entre 10.000 e 400.000 dólares por item, segundo uma tarifa que incluía 10.000 dólares por uma abacate, 15.000 por um chip de telefone ou 400.000 por um celular. Métodos como “la feria” permitiam vendas internas de carne, licor e substâncias, enquanto “rescate” e “delivery” facilitavam transferências e entregas por encomenda. Além disso, migrantes irregulares entravam por pagamentos extras, e os funcionários usavam parentes como fachadas para lavagem de dinheiro, apreendendo 183 contas bancárias, 11 veículos, armas e drogas.
Em resposta, o presidente Boric, a menos de três meses de deixar o cargo, anunciou a reforma constitucional em 17 de dezembro de 2025. “Com esta reforma, a Gendarmería se tornará uma instituição de segurança pública dependente do Ministério da Segurança Pública. As competências de reinserção serão alojadas no Ministério da Justiça, em uma nova instituição”, explicou. A ideia, proposta anteriormente pelo ministro Luis Cordero, foi impulsionada pelas descobertas da operação, discutida com o presidente eleito José Antonio Kast para apoio multipartidário.
O ministro Cordero enfatizou: “Esta reforma não é apenas uma forma de reestruturar e reorganizar a Gendarmería, é também uma forma de limpar a Gendarmería de elementos ruins.” A nova Gendarmería será “obediente, hierárquica e não deliberativa”, como Carabineros e PDI, sem sindicatos. O ex-ministro da Justiça Hernán Larraín elogiou: “A crise prisional atingiu o fundo há algum tempo... Propusemos separar as funções da Gendarmería.” O deputado Rubén Oyarzo celebrou, mas considerou tardia.
A formalização dos detidos está agendada para 19 de dezembro no 12º Tribunal de Garantia de Santiago, por crimes como suborno e peculato. Um relatório do Controlador revelou vulnerabilidades: 1.279 visitas não autorizadas e apenas 12% das prisões com inibidores de sinal, destacando a penetração do crime organizado.