Pesquisadores decifram tábuas cuneiformes de 4.000 anos que revelam rituais e um recibo de cerveja

Pesquisadores do Museu Nacional e da Universidade de Copenhague decifraram tábuas de argila com mais de 4.000 anos, revelando feitiços mágicos, registros reais e a burocracia cotidiana de antigas civilizações do Oriente Médio. Os textos incluem raros rituais contra bruxaria para proteger reis assírios e uma lista real que sugere a existência histórica do Rei Gilgamesh. Uma das tábuas registra até mesmo um simples recibo de cerveja.

Por mais de um século, o Museu Nacional da Dinamarca abrigou uma coleção de tábuas cuneiformes de civilizações primitivas nas atuais regiões do Iraque e da Síria. Esses artefatos, que datam de mais de 4.000 anos, utilizam o sistema de escrita mais antigo do mundo para documentar tudo, desde decisões reais até transações diárias. Como parte do projeto 'Tesouros Escondidos: A Coleção Cuneiforme do Museu Nacional', pesquisadores analisaram, identificaram e digitalizaram toda a coleção pela primeira vez, sob a liderança de Nicole Brisch, da Universidade de Hamburgo, e Anne Haslund Hansen, do Museu Nacional. O projeto recebe o apoio da Fundação Carlsberg, da Fundação Augustinus e da Fundação Edubba. As tábuas revelam uma gama diversificada de conteúdos, incluindo cartas, registros contábeis, instruções médicas e textos mágicos. Um grupo notável é originário da antiga cidade síria de Hama, destruída pelas forças assírias em 720 a.C. O assiriologista Troels Pank Arbøll, integrante do projeto, observou que esses textos de quase 3.000 anos provenientes de uma biblioteca de um templo incluem tratamentos médicos e encantamentos. Uma tábua de Hama detalha um raro ritual contra bruxaria, crucial para a autoridade real assíria. Realizado durante a noite por um exorcista que recitava encantamentos enquanto queimava figuras de cera e argila, o ritual visava afastar infortúnios como a instabilidade política. Arbøll explicou: “Uma das tábuas de argila revelou conter um chamado ritual contra bruxaria, que era de enorme importância para a autoridade real na Assíria, pois possuía a notável capacidade de afastar infortúnios — como a instabilidade política — que poderiam recair sobre um rei”. Outras descobertas incluem uma lista de governantes do final do terceiro milênio a.C., que antecede o Dilúvio bíblico e está potencialmente ligada ao lendário Gilgamesh. Arbøll descreveu-a como “uma das poucas relíquias que temos que sugere que Gilgamesh possa ter realmente existido. Não tínhamos ideia de que possuíamos uma cópia dessa lista aqui na Dinamarca. É algo bastante espetacular”. Tábuas de Tell Shemshara, no norte do Iraque, datadas de cerca de 1800 a.C., mostram correspondências entre líderes locais e reis assírios, além de inventários e listas de pessoal. Arbøll destacou a burocracia, acrescentando que uma tábua contém “algo tão comum quanto um recibo muito antigo de cerveja”.

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