Kleber Cabral, presidente da Associação Nacional dos Auditores da Receita Federal (Unafisco), prestou depoimento à Polícia Federal nesta sexta-feira, 20, na condição de investigado no Inquérito das Fake News do Supremo Tribunal Federal. A oitiva, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, ocorreu por videoconferência e durou cerca de uma hora, sob sigilo de Justiça. Cabral foi intimado após criticar publicamente uma operação da PF contra servidores da Receita acusados de acessar dados de ministros do STF e seus parentes.
O depoimento de Kleber Cabral ocorreu em 20 de fevereiro, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, relator do Inquérito das Fake News, aberto pelo STF em 2019. A Unafisco informou que Cabral foi questionado unicamente por declarações à imprensa após a operação da PF em 17 de fevereiro, que cumpriu mandados de busca e apreensão contra quatro servidores da Receita Federal e do Serpro, em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Os alvos incluem Ricardo Mansano de Moraes, Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento e Ruth Machado dos Santos, acusados de acessar ilegalmente informações de ministros do STF e parentes.
Cabral criticou a operação em entrevistas, afirmando que fiscalizar autoridades e seus parentes se tornou uma atividade de risco para funcionários da Receita. Em declaração à Folha na quinta-feira, 19, ele disse: "Se você perguntar dentro da Receita se alguém quer fiscalizar o crime organizado, aparece meia dúzia, mas se você for fiscalizar pessoas politicamente expostas, não vai aparecer ninguém". Ele também questionou a proporcionalidade das medidas impostas, como monitoramento por tornozeleira eletrônica, afastamento de funções públicas, cancelamento de passaportes e proibição de saída do país, aplicadas por determinação de Moraes.
A Receita Federal esclareceu em nota que as buscas se basearam em informações fornecidas pelo próprio órgão. O Sindifisco Nacional expressou estranheza com a intimação de Cabral, afirmando que, se motivada por suas opiniões, fere a liberdade de expressão prevista na Constituição Federal.
A PF também investiga possíveis ligações entre Mansano e Ricardo Pereira Feitosa, ex-chefe de inteligência da Receita no início do governo Jair Bolsonaro, exonerado em 2023 após acessar dados de desafetos do ex-presidente. A relação entre Feitosa e Cabral está sob apuração. No depoimento, Mansano argumentou que acessou dados de Maria Carolina Feitosa, filha da advogada Guiomar Feitosa e ex-enteada do ministro Gilmar Mendes, ao buscar informações ligadas a Feitosa, com quem trabalhou em Cuiabá. As defesas de Mansano e Feitosa negam irregularidades e afirmam reputação ilibada dos envolvidos.
Cabral recordou uma fiscalização da Receita em 2018/2019 suspensa por Moraes, envolvendo acessos a dados de parentes dos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, sem confirmação de vazamentos.