Pesquisadores da Rice University desenvolveram um modelo climático que mostra que pequenos lagos no Marte primitivo poderiam permanecer líquidos por décadas sob gelo sazonal fino, apesar de temperaturas congelantes. Essa descoberta aborda um enigma chave na ciência planetária sobre evidências de água em um Planeta Vermelho aparentemente frio. O estudo sugere que tais lagos podem ter derretido e congelado novamente anualmente sem solidificar completamente.
Pequenos lagos no Marte primitivo, há cerca de 3,6 bilhões de anos, podem ter durado décadas mesmo com temperaturas médias do ar caindo muito abaixo do ponto de congelamento, de acordo com um novo estudo da Rice University. Publicado na AGU Advances, a pesquisa adapta uma estrutura de modelagem climática baseada na Terra para simular condições marcianas, particularmente na Cratera Gale perto do equador do planeta. A equipe, liderada pela estudante de pós-graduação Eleanor Moreland, modificou a abordagem de Modelagem de Sistemas Proxy — originalmente usada para reconstruir climas antigos da Terra por meio de proxies como anéis de árvores ou núcleos de gelo — em uma ferramenta chamada LakeM2ARS. Esse modelo incorpora fatores específicos de Marte, como luz solar reduzida, atmosfera rica em dióxido de carbono e variações sazonais únicas. Usando dados do rover Curiosity da NASA, incluindo formações rochosas e depósitos minerais, eles executaram 64 cenários simulando um lago hipotético por 30 anos marcianos, equivalentes a cerca de 56 anos terrestres. Os resultados indicam que, em certas condições, os lagos permaneciam líquidos sob uma fina camada de gelo que se formava sazonalmente. Esse gelo atuava como isolante, retendo calor para evitar congelamento total enquanto permitia que a luz solar aquecesse a água durante períodos mais amenos, minimizando evaporação e mudanças de profundidade ao longo do tempo. «Ver bacias de lagos antigos em Marte sem evidências claras de gelo espesso e duradouro me fez questionar se esses lagos poderiam conter água por mais de uma estação em um clima frio», disse Moreland. «Quando nosso novo modelo começou a mostrar lagos que podiam durar décadas com apenas uma fina camada de gelo que desaparecia sazonalmente, foi empolgante que pudéssemos finalmente ter um mecanismo físico que se encaixe no que vemos em Marte hoje.» A coautora Kirsten Siebach acrescentou: «Essa cobertura de gelo sazonal age como um cobertor natural para o lago. Isola a água no inverno enquanto permite que derreta no verão. Como o gelo é fino e temporário, deixaria pouca evidência, o que pode explicar por que os rovers não encontraram sinais claros de gelo perene ou geleiras em Marte.» A descoberta desafia visões anteriores de que água líquida exigia períodos prolongados de calor em Marte. Em vez disso, lagos estáveis sob gelo sazonal poderiam explicar características geológicas preservadas como linhas de costa, sedimentos em camadas e minerais. Trabalhos futuros testarão o modelo em outras bacias marcianas para avaliar implicações mais amplas para habitabilidade passada, pois água líquida permanece crucial para ambientes potencialmente habitáveis. O estudo foi apoiado pelo Rice Faculty Initiative Fund e pela Canadian Space Agency, com coautores de instituições incluindo o Jet Propulsion Laboratory da NASA e a Brown University.