Pesquisadores australianos relatam que uma proteína do vírus da raiva muda de forma e se liga ao RNA para acessar compartimentos celulares semelhantes a líquidos, oferecendo uma explicação unificadora para como o vírus exerce amplo controle com poucos genes. O trabalho, publicado em 29 de outubro de 2025 na Nature Communications, pode informar antivirais e vacinas futuras, diz a equipe.
Um estudo liderado por cientistas da Universidade de Monash e da Universidade de Melbourne descreve como a fosfoproteína (P) do vírus da raiva adquire uma ampla gama de funções ao alternar conformações e se ligar ao RNA. Em modelos de laboratório, essas propriedades permitem que a proteína —particularmente sua isoforma P3— interaja com condensados biomoleculares formados por separação de fase líquido-líquido, proporcionando acesso a centros celulares que regulam processos chave. A pesquisa foi publicada na Nature Communications em 29 de outubro de 2025 (DOI: 10.1038/s41467-025-65223-y).
As descobertas ajudam a explicar como a raiva pode fazer tanto com tão pouco material genético. O vírus da raiva codifica cinco proteínas estruturais —N, P, M, G e L—, muito menos que as cerca de 20.000 proteínas em uma célula humana, mas pode manipular defesas antivirais e outras vias. O Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus e referências médicas padrão confirmam a organização genômica de cinco genes do vírus da raiva.
“Nosso estudo mostra que mudanças de forma e ligação ao RNA conferem à proteína P uma gama notável de funções”, disse o coautor principal Stephen Rawlinson. O coautor sênior Greg Moseley acrescentou que vírus como a raiva são letais em parte porque assumem o controle de múltiplos sistemas celulares, incluindo aqueles ligados à produção de proteínas e defesa imune. “Eles sequestram a maquinaria que produz proteínas e desativam as defesas que normalmente nos protegem”, disse ele em um resumo fornecido pela Monash. Paul Gooley da Universidade de Melbourne disse que a ligação ao RNA permite que a proteína se mova entre os compartimentos semelhantes a líquidos da célula, “transformando a célula em uma fábrica de vírus altamente eficiente”, de acordo com o mesmo relato. As citações foram fornecidas por meio de um comunicado da universidade disseminado pela ScienceDaily.
Os autores relatam que P3 —mas não a P1 de comprimento total— se liga ao RNA, e que essa interação se correlaciona com a capacidade da proteína de se envolver com estruturas celulares separadas por fase, desafiando a visão tradicional “modular” da multifuncionalidade de proteínas virais. Em vez disso, eles propõem que a regulação conformacional de longo alcance, juntamente com a ligação ao RNA, sustenta como um produto gênico viral pode acessar muitas vias do hospedeiro.
Embora os experimentos se concentrassem na raiva, os pesquisadores sugerem que estratégias semelhantes podem operar em outros vírus de alto impacto, como Nipah e Ebola. Eles alertam que traduzir esses insights em terapias exigirá mais trabalho, mas argumentam que mirar na dinâmica conformacional de proteínas ou interfaces de ligação ao RNA poderia ser um caminho para antivirais ou vacinas aprimoradas.
A colaboração incluiu a Universidade de Monash; a Universidade de Melbourne; o Australian Synchrotron da Australian Nuclear Science and Technology Organisation; o Peter Doherty Institute for Infection and Immunity; o Australian Centre for Disease Preparedness da CSIRO; e a Deakin University.