A toxicidade geral dos pesticidas aplicados em todo o mundo aumentou significativamente de 2013 a 2019, afetando vários grupos de organismos apesar de uma meta da ONU para reduzir riscos até 2030. Pesquisadores desenvolveram uma medida chamada toxicidade aplicada para avaliar esse ônus em 201 países. A tendência destaca desafios crescentes da resistência a pesticidas e mudanças no uso de químicos.
Mais de 60 anos após o influente livro de Rachel Carson Silent Spring alertar sobre os perigos dos pesticidas, seu impacto na vida selvagem parece estar se intensificando. Um estudo publicado na Science analisou dados sobre 625 pesticidas usados em 201 países entre 2013 e 2019, incluindo opções convencionais e orgânicas. Combinando quantidades de uso com níveis de toxicidade para oito grupos de organismos — como plantas aquáticas, peixes, polinizadores e artrópodes terrestres —, os pesquisadores calcularam a toxicidade aplicada total por país e grupo. Globalmente, essa toxicidade aumentou para seis dos oito grupos ao longo do período. Polinizadores enfrentaram um aumento de 13%, peixes 27% e artrópodes terrestres, incluindo insetos e aranhas, um salto de 43%. «Na maioria dos países, mais ou menos, a tendência é de aumento da toxicidade aplicada», observou Ralf Schulz, da Universidade RPTU Kaiserslautern-Landau, na Alemanha, autor principal do estudo. Esses aumentos decorrem de maiores volumes de pesticidas e da adoção de químicos mais potentes, impulsionados principalmente pela resistência evolutiva das pragas. «A resistência, na minha visão, é algo que só pode aumentar se você usar pesticidas químicos», acrescentou Schulz. Algumas classes se destacam: piretróides representam riscos para peixes e invertebrados aquáticos apesar de baixas taxas de aplicação, enquanto neonicotinoides ameaçam polinizadores. Até o glifosato, herbicida amplamente usado em produtos como Roundup, contribui devido ao seu volume, embora sua toxicidade individual seja moderada; substituí-lo poderia elevar a toxicidade geral se as alternativas forem mais prejudiciais. O monitoramento ambiental frequentemente revela níveis de pesticidas em rios e solos que excedem previsões regulatórias, sublinhando subestimações nas avaliações de risco. Na cúpula de biodiversidade da ONU em 2022, nações se comprometeram a reduzir pela metade os riscos de pesticidas até 2030, embora o termo «risco» permaneça indefinido — a toxicidade aplicada poderia servir como métrica. Especialistas alertam que o índice tem limitações, mas revela padrões preocupantes. «O mundo está se afastando da meta da ONU em vez de se aproximar dela. Isso é uma má notícia para os ecossistemas e, no final, para a saúde humana», disse Roel Vermeulen, da Universidade de Utrecht. Ele enfatizou que alguns pesticidas altamente tóxicos impulsionam grande parte do ônus, oferecendo pontos de intervenção direcionados. Mudanças mais amplas, incluindo mudanças na dieta, redução do desperdício de alimentos e precificação que considera custos ambientais, serão essenciais para a agricultura sustentável.