Pesquisadores da University of California, Riverside, identificaram como a inflamação na esclerose múltipla perturba a função mitocondrial no cérebro, levando à perda de neurônios chave que controlam equilíbrio e coordenação. Publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences, os achados destacam um caminho potencial para novos tratamentos que preservem a mobilidade nos 2,3 milhões de pessoas afetadas pela doença em todo o mundo. O estudo examinou tecido cerebral humano e um modelo de camundongo para rastrear essas falhas energéticas ao longo do tempo.
A esclerose múltipla (EM) afeta cerca de 2,3 milhões de indivíduos globalmente, com cerca de 80% experimentando inflamação no cerebelo, a região do cérebro responsável pelo equilíbrio e movimento coordenado. Esse dano frequentemente resulta em tremores, marcha instável e dificuldades de controle muscular que pioram progressivamente à medida que o tecido cerebelar deteriora.
Uma nova investigação da University of California, Riverside, liderada pela professora de ciências biomédicas Seema Tiwari-Woodruff, revela que mitocôndrias defeituosas — as produtoras de energia da célula — desempenham um papel central nesse declínio. A pesquisa, conduzida pela aluna de pós-graduação Kelley Atkinson e colegas, focou nas células de Purkinje, neurônios especializados no cerebelo que permitem ações precisas como andar ou alcançar. "Dentro do cerebelo há células especiais chamadas neurônios de Purkinje", explicou Tiwari-Woodruff. "Essas células grandes e altamente ativas ajudam a coordenar movimentos suaves e precisos — elas são essenciais para equilíbrio e habilidades motoras finas."
Análise de tecido cerebelar post mortem de pacientes com EM progressiva secundária, obtido do NeuroBioBank dos National Institutes of Health e da Cleveland Clinic, mostrou esses neurônios com ramos reduzidos, desmielinização (perda da bainha de mielina protetora) e níveis esgotados da proteína mitocondrial COXIV. Essa escassez de energia parece impulsionar a morte celular e agravar a ataxia, uma marca de coordenação deficiente.
Para rastrear a progressão, a equipe usou um modelo de camundongo de encefalomielite autoimune experimental (EAE) que imita sintomas de EM. As observações indicaram quebra precoce de mielina e prejuízo mitocondrial, seguida de perda posterior de células de Purkinje. "Os neurônios restantes não funcionam tão bem porque suas mitocôndrias... começam a falhar", observou Tiwari-Woodruff. "Também vimos que a mielina se quebra no início da doença. Esses problemas — menos energia, perda de mielina e neurônios danificados — começam cedo, mas a morte real das células cerebrais tende a ocorrer mais tarde."
Financiado pela National Multiple Sclerosis Society, o estudo sugere que mirar a saúde mitocondrial poderia desacelerar o declínio neurológico. Trabalhos futuros examinarão efeitos mitocondriais em outras células cerebelares, como oligodendrócitos e astrócitos, potencialmente levando a terapias que aumentem o suprimento de energia, reparem mielina ou modular imunidade no início do curso da doença. Tiwari-Woodruff enfatizou a necessidade de investimento contínuo em pesquisa: "Cortar financiamento à ciência só retarda o progresso quando mais precisamos."
O artigo, intitulado "Atividade mitocondrial diminuída no cerebelo desmielinizante da esclerose múltipla progressiva e EAE crônica contribui para a perda de células de Purkinje", foi publicado em 2025.