Governo propõe norma para prevenir demissões arbitrárias no setor público

O governo chileno busca incluir no projeto de reajuste do setor público uma norma que exige justificativa para demitir trabalhadores contratados, gerando debate pois a oposição a rotula de 'lei de amarração'. Quase 70% dos 411.136 trabalhadores da administração central estão sob este tipo de contrato, majoritariamente profissionais. O ministro da Fazenda defende a medida como proteção contra arbitrariedades.

O debate centra-se numa disposição que o governo chileno quer adicionar ao projeto de reajuste do setor público para restringir futuras demissões de funcionários pouco antes da mudança de governo em março de 2026. Esta iniciativa responde a um pedido da mesa dos trabalhadores do setor público, mas alarmou parlamentares da oposição e a equipa do presidente eleito José Antonio Kast, que a chamam de “lei de amarração”.

Do Executivo, o ministro da Fazenda Nicolás Grau defendeu a norma na rádio ADN: “O que a norma faz é que, se um trabalhador contratado no setor público for demitido, deve ser justificado. E o trabalhador tem o direito de contestar essa demissão na Controladoria, e a Controladoria terá de rever a justificação”. Grau rejeitou as acusações de “amarração”, argumentando que visa “evitar demissões arbitrárias” e não impedi-las totalmente, ao contrário do que é resolvido atualmente nos tribunais de justiça.

Esta discussão enquadra-se na realidade contratual do setor público. Segundo o Relatório de Recursos Humanos de 2024, dos 411.136 funcionários da administração central, 280.149 estão em contrato, o que equivale a 68,1%. Destes, 163.660 (58,4%) são profissionais, seguidos de técnicos (61.776, 22,1%) e pessoal administrativo (53.831, 19,2%). O Ministério da Ciência e Tecnologia lidera com 97% do seu pessoal em contrato, seguido do Ambiente (96%) e Transportes e Minas (95,7%).

Demograficamente, as mulheres predominam (179.566) sobre os homens (100.581), com dois não binários, e a maioria no grupo etário de 35-44 anos (99.360). A norma exclui assessores de confiança, que devem renunciar com o novo governo, como esclareceu Grau na rádio Infinita: “As pessoas nos gabinetes (...) têm de sair juntamente com os ministros”.

Especialistas como a economista Ingrid Jones da LyD propõem uma única modalidade de contratação via concurso público e mérito, com avaliação e trajetórias de carreira. Juan Francisco Galli da Pivotes defende um novo estatuto que elimine distinções entre permanentes, contratados e honorários, instando a uma reforma do emprego público para o governo entrante.

A norma especifica que a não renovação de contratos requer um ato administrativo fundado em critérios objetivos, e os funcionários com pelo menos dois anos de serviço podem contestar perante a Controladoria, salvo se já tiverem iniciado ações judiciais.

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