Novo white paper do Climate Cardinals destaca como a ciência climática e alertas de desastres dominados pelo inglês excluem grande parte do mundo, particularmente povos indígenas. Em 2023, incêndios florestais em Yellowknife, Canadá, forçaram a evacuação de mais de 19.000 pessoas, com alertas emitidos apenas em inglês e francês, não nas nove línguas indígenas oficiais. O relatório pede um fundo global para apoiar traduções de dados e avisos climáticos.
No verão de 2023, incêndios florestais devastaram Yellowknife, capital dos Territórios do Noroeste do Canadá, levando à evacuação de mais de 19.000 residentes. Alertas de emergência foram enviados em inglês e francês, mas omitiram as nove línguas indígenas reconhecidas como oficiais no território. Isso deixou algumas famílias indígenas dependentes de fontes informais como amigos, rádio e redes sociais para atualizações vitais. Um white paper lançado pelo Climate Cardinals, grupo de advocacy liderado por jovens, identifica esse incidente como sintomático de problemas maiores na comunicação climática. A organização descobriu que 80 por cento dos artigos científicos são publicados em inglês, língua falada por apenas 18 por cento da população global. Essa dominância, argumentam os pesquisadores, impede a maioria das pessoas de acessar conhecimentos essenciais sobre os efeitos das mudanças climáticas, incluindo decisores. «A língua não é só sobre inclusão, mas realmente determina o que conta como realidade climática», afirmou Jackie Vandermel, co-diretora de pesquisa do Climate Cardinals. «A língua não é só sobre quem recebe a informação, mas também sobre o que é permitido existir na governança climática». O relatório enfatiza a urgência de traduzir materiais para línguas indígenas, que enfrentam ameaças do colonialismo e deslocamento impulsionado pelo clima. Essas línguas detêm insights únicos sobre ecossistemas locais e padrões climáticos, mas comunidades indígenas arcam com ônus climáticos desproporcionais, como derretimento do gelo ártico e tufões no Pacífico. «Observações indígenas são os sinais climáticos mais precoces, mas a ciência flui para onde o conhecimento indígena é extraído, e os achados científicos não são devolvidos a eles em forma acessível», acrescentou Vandermel. Ela destacou o potencial do jornalismo: «Ao escolher cujas vozes são ouvidas, em que línguas e formatos, o jornalismo pode reproduzir lacunas existentes ou ajudar a tornar legíveis realidades climáticas indígenas e multilíngues para os sistemas que governam resposta e financiamento». O Climate Cardinals defende um fundo global de acesso linguístico climático para financiar traduções de pesquisas, relatórios, negociações e alertas meteorológicos. Embora a ONU não tenha perseguido tal fundo, algumas agências testam aprendizado de máquina para traduções. No entanto, tensões geopolíticas e déficits em financiamento climático complicam os esforços. Na recente COP30 no Brasil, promessas de financiamento para adaptação permaneceram ambíguas e muito abaixo dos estimados 400 bilhões de dólares necessários anualmente. Nos Estados Unidos, cortes sob a administração Trump reduziram apoio a programas climáticos e avisos não ingleses. «A contratação de tradutores, educadores multilíngues e repórteres locais deve ser incorporada às estruturas de políticas e financeiras», disse Laura Martin, professora associada de estudos ambientais no Williams College. «A língua é uma questão de justiça climática».