Os humanos são os únicos primatas com queixo, uma característica que tem intrigado biólogos. Uma nova análise sugere que surgiu não para um propósito específico, mas como efeito colateral de outras mudanças evolutivas. Pesquisadores examinaram centenas de crânios de macacos para chegar a esta conclusão.
Biólogos debatem há muito a evolução do queixo humano, uma projeção óssea na mandíbula inferior que se estende além dos dentes da frente. Diferente de outros primatas ou mesmo espécies humanas extintas, este traço define o Homo sapiens. Teorias anteriores propunham que poderia aliviar tensão na mastigação, auxiliar na fala ou resultar de seleção sexual. Outros suspeitavam que não tinha função direta, surgindo incidentalmente de mudanças mais amplas no crânio. Noreen von Cramon-Taubadel, da University at Buffalo no estado de Nova Iorque, liderou um estudo que desafia a ideia de que toda característica única evolui intencionalmente. «Tem havido uma tendência a assumir que toda característica que difere significativamente entre espécies foi moldada pela seleção natural para um propósito específico, mas esta visão ‘intencional’ da evolução é imprecisa», disse ela. «A evolução é frequentemente mais bagunçada e menos direcionada do que as pessoas esperam ou assumem.» A equipe analisou 532 crânios de humanos e 14 espécies de macacos, incluindo chimpanzés, bonobos, gorilas, orangotangos e gibões. Mediram 46 distâncias anatômicas, focando em áreas relacionadas ao queixo, e mapearam-nas em uma árvore evolutiva. Usando um modelo genético, estimaram a forma da cabeça do último ancestral comum dos macacos e testaram seleção versus deriva genética aleatória. Os resultados mostraram três traços do queixo sob seleção direta, enquanto outros seis foram subprodutos de adaptações não relacionadas. À medida que os ancestrais adotaram posturas eretas, as bases do crânio flexionaram, os rostos se recolheram sob cérebros maiores e dentes menores reduziram o tamanho da mandíbula. Isso fez com que a mandíbula superior recuasse, deixando a inferior projetar-se para frente. «Esta característica única parece ter surgido como consequência dos humanos evoluírem com postura ereta, cabeças maiores e dentes menores», explicou von Cramon-Taubadel, notando como a seleção em uma área do corpo afeta outras. Alessio Veneziano, do French National Museum of Natural History em Paris, chamou o queixo de «exemplo de livro didático» de não-adaptação. James DiFrisco, do Francis Crick Institute em Londres, enfatizou a integração do crânio e da mandíbula: «Só porque uma característica observável como o queixo parece uma ‘coisa’ distinta não significa que evolui realmente como uma unidade independente.» As descobertas, publicadas no PLOS One (DOI: 10.1371/journal.pone.0340278), ilustram a natureza interconectada da evolução, com traços como o queixo como spandrels — resultados não intencionais de outras seleções.