Pesquisadores descobriram um fêmur de 7,2 milhões de anos na Bulgária que apresenta características sugerindo locomoção bípede, anterior aos fósseis de hominínios africanos conhecidos. A descoberta, ligada à espécie de macaco Graecopithecus freybergi, desafia a ideia de que a caminhada ereta evoluiu unicamente na África. No entanto, especialistas alertam que mais evidências são necessárias para confirmar o bipedalismo.
Em 2016, uma equipe liderada por Madelaine Böhme, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, escavou um fêmur direito quase completo no sítio Azmaka, perto de Chirpan, no sul da Bulgária. O osso, com 21,5 centímetros e apelidado de “Diva”, provém de sedimentos datados de 7,2 milhões de anos atrás, tornando-o mais antigo que qualquer fóssil de hominíneo reconhecido da África. Os pesquisadores propõem que o osso pertence a Graecopithecus freybergi, um macaco conhecido por um maxilar na Grécia, um dente na Macedónia do Norte e um dente em Azmaka. Esta espécie viveu num período em que a Europa abrigava macacos diversos, embora a maioria tivesse desaparecido há 7,2 milhões de anos, deixando os macacos africanos como nossos parentes mais próximos hoje. O grupo de Böhme analisou o fêmur usando medições e uma tomografia computadorizada, identificando traços que interpretam como sinais de bipedalismo. Estes incluem um colo curto com uma seção reta para cargas verticais, osso mais espesso na parte inferior do colo para suportar peso, e uma crista para músculos glúteos que ajudam a manter a postura ereta. “As indicações mais antigas de bipedalismo são encontradas na Europa”, afirmou Böhme. Clément Zanolli, da Universidade de Bordeaux, na França, que não esteve envolvido, chamou-o de “uma descoberta muito, muito bonita” devido à sua preservação, rara para fósseis de hominídeos do Mioceno. Contudo, ele observou características mistas: algumas semelhantes às bípedes, outras sugerindo movimento quadrúpede, complicando as avaliações locomotoras. Kelsey Pugh, da OCAD University, em Toronto, concordou que a associação com Graecopithecus é tentativa e enfatizou que diagnosticar bipedalismo a partir de um único osso é desafiador. Estudos recentes de macacos extintos, incluindo debates sobre o Sahelanthropus tchadensis de 7 milhões de anos do Chade, elevaram os padrões de evidência, exigindo múltiplos traços diagnósticos. A equipe de Böhme argumentou anteriormente pela origem europeia de traços hominíneos, citando características do maxilar de Graecopithecus e o Danuvius guggenmosi de 11,6 milhões de anos, que poderia ficar ereto nas árvores. Eles sugerem que hominínios iniciais podem ter migrado para a África em meio a mudanças climáticas entre 8,75 e 6,25 milhões de anos atrás. Zanolli acrescentou que movimentos faunísticos entre continentes apoiam tais possibilidades, mas Pugh instou por mais fósseis de Graecopithecus para esclarecer relações antes que cenários detalhados surjam. O estudo aparece em Palaeobiodiversity and Palaeoenvironments (DOI: 10.1007/s12549-025-00691-0).