Pesquisadores da Universidade Federal do ABC, no Brasil, relatam uma molécula quelante de cobre simples que reduziu a patologia ligada à beta-amiloide e melhorou a memória em ratos. O composto não apresentou toxicidade detectável em testes pré-clínicos e, com base em modelagem computacional, é previsto que atravesse a barreira hematoencefálica. A equipe busca parceiros da indústria para o desenvolvimento clínico.
Uma equipe de pesquisa liderada por Giselle Cerchiaro na Universidade Federal do ABC (UFABC), Brasil, desenvolveu um novo composto direcionado ao cobre que melhorou a cognição e reduziu marcadores da doença em um modelo de rato para a doença de Alzheimer. O trabalho, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), é detalhado na ACS Chemical Neuroscience (publicado em 15 de agosto de 2025; DOI: 10.1021/acschemneuro.5c00291).
De acordo com o artigo e o comunicado da FAPESP que o acompanha, os compostos atuam como quelantes de cobre, ligando o excesso de cobre associado a placas de beta-amiloide e promovendo sua degradação. “Há cerca de uma década, estudos internacionais começaram a apontar a influência dos íons de cobre como um agregador de placas de beta-amiloide. Foi descoberto que mutações genéticas e mudanças em enzimas que atuam no transporte de cobre nas células poderiam levar ao acúmulo do elemento no cérebro, favorecendo a agregação dessas placas. Assim, a regulação da homeostase do cobre tornou-se um dos focos para o tratamento do Alzheimer”, disse Cerchiaro.
De um conjunto inicial de dez moléculas candidatas, três avançaram para testes em animais. Em ratos com uma condição induzida semelhante ao Alzheimer, um composto (identificado no estudo como L10) se destacou: os animais tratados mostraram melhor desempenho em tarefas de memória espacial, juntamente com redução da neuroinflamação e estresse oxidativo e restauração do equilíbrio de cobre no hipocampo. O estudo também relata uma reversão nos padrões de placas de beta-amiloide.
Avaliações de segurança não encontraram toxicidade detectável em culturas de células do hipocampo ou nos ratos tratados nas doses testadas; os sinais vitais foram monitorados durante os experimentos. Análises in silico previram que o composto pode atravessar a barreira hematoencefálica, apoiando seu potencial como candidato a medicamento.
O projeto fez parte da tese de doutorado de Mariana L. M. Camargo, da tese de mestrado de Giovana B. Bertazzo e da pesquisa de graduação de Augusto B. Farias. Uma equipe liderada por Kleber Thiago de Oliveira na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sintetizou um dos compostos. As descobertas levaram a um pedido de patente, e os pesquisadores estão buscando parcerias para iniciar ensaios clínicos em humanos. “É uma molécula extremamente simples, segura e eficaz. O composto que desenvolvemos é muito menos caro que os medicamentos disponíveis. Portanto, mesmo que funcione apenas para parte da população, já que a doença de Alzheimer tem múltiplas causas, representaria um grande avanço sobre as opções atuais”, disse Cerchiaro.
O Alzheimer afeta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, e os tratamentos atuais permanecem limitados. Se estudos futuros confirmarem segurança e eficácia em humanos, uma abordagem de baixo custo direcionada ao cobre poderia expandir as opções terapêuticas.